No dia 15 de Janeiro de 2006 embarquei num avião rumo a Montevideo (Uruguai) com uma pequena escala de duas horas em São Paulo (Brasil). Como rapariga prevenida que sou, apesar de tal nunca me ter acontecido em todas as minhas viagens, decidi, pela primeira vez, levar uma muda de roupa na minha mochila, pois a bagagem, só a tornaria a ver no Uruguai.
Parece que adivinhei o futuro, e depois de aterrar, finalmente, no país desejado, de já não sei quantas horas de avião de um lado para o outro e de outras tantas à espera em aeroportos, vejo que a minha bagagem não aparece. Olho à minha volta e tirando pouco mais de 20 pessoas, o aeroporto está vazio. Vejo que não sou a única cuja bagagem não aparece e no meu “portunhol” começo a tentar perguntar o que se passou. Finalmente, a resposta: “as suas malas ficaram em São Paulo e vêm no voo amanhã de manhã”.
Ok, depois de tratar de tudo, de deixar um contacto (que hoje sei que já não existe!), de tentar desesperadamente ligar o telemóvel só para dizer que estou viva e que cheguei (e de ver que o meu telemóvel não funciona no Uruguai), saio do aeroporto por volta da 1h da manhã e conheço o Phillip, um dos coordenadores do Projecto Karumbé que ficou de me esperar lá.
Apresentações feitas e explicações dadas pelo atraso, decidimos que é melhor, devido à hora tardia e a toda a situação, ficar em casa da irmã dele até ao dia seguinte e de manhã ir buscar as minhas malas ao aeroporto. Assim foi, e só no dia seguinte, por volta das 9h da manhã é que consegui finalmente ligar para casa para uma mãe preocupada sobre o que se passaria e porque não dava eu notícias.
16 de Janeiro de 2006 (segunda-feira)
Na manhã seguinte, como combinado, lá foi o Phillip buscar-me a casa da irmã e fomos para o aeroporto. Passado meia-hora já tinha as minhas malas e estava na altura de irmos comer qualquer coisa e depois irmos para a estação rodoviária apanhar o autocarro para La Coronilla, esse sim, meu destino final, que ficava a cerca de 5 horas de Montevideo, a cerca de 30km da fronteira com o Brasil.
Como o autocarro só ia partir daí a umas horas, o Phillip levou-me a visitar a cidade, que sendo a capital do país tem sempre muito para ver, e não valia a pena desperdiçar as horas que ainda tinha de esperar. Visitei o centro, em construção, do Projecto, em El Pinar, onde conheci o Cedric, um francês que há muito estava no Uruguai e agora ajudava no Projecto. Depois do almoço vegetariano, cozinhado especialmente para mim, fomos então visitar a cidade, de carro, e principalmente, pela marginal, vendo o Rio da Prata e imaginando que ali, onde a vista não alcançava o horizonte, estava a Argentina e a cidade que eu tanto queria visitar, Buenos Aires. Mas essa visita, fica para outra altura.
A hora aproximou-se e tive de me ir embora. Apesar de ter pesos uruguaios, ainda não os tinha gasto pois foi o Phillip quem comprou o bilhete. Ele disse-me que o autocarro era um expresso e, como tal, não iria fazer muitas paragens. A minha seria a 3ª ou 4ª paragens. Qual não foi o meu espanto ao verificar que na 4ª paragem ainda nem tinham decorrido 2 horas. Afinal não era um expresso, e como não fazia ideia onde estava fui falar com o motorista para me avisar quando fosse a minha paragem. Segundo o Phillip estaria alguém à minha espera em La Coronilla. Mas eu, que devia ter chegado por volta das 22h30m, cheguei às 00h. Não estava ninguém à minha espera e ali onde ele parou, não havia vivalma para lado nenhum, tirando um restaurante, que felizmente estava aberto e para onde me dirigi rapidamente. Expliquei à senhora do restaurante a minha situação e ela disse que o filho dela iria chamar alguém ao centro, alguém do projecto, para me virem buscar.
Passado cerca de meia-hora, lá apareceu a Melissa (uma das coordenadoras), a Irene e o Patrício (assistentes do Projecto). E, realmente, o mundo é muito pequeno, pois ali, do outro lado do mundo, vou encontrar o Patrício, que tinha estado, no ano lectivo anterior a fazer Erasmus na Universidade dos Açores, onde eu estudo… Bem, levaram-me para uma casa, que seria onde ia dormir. Essa casa tinha 3 quartos. Num ficavam 2 coordenadoras do projecto (Isa e Fio), noutro ficava um casal australiano (a Rebecca e o Chris), e noutro ficava eu, a Rebekita (EUA) e a Shayla (EUA), embora na primeira semana também lá estivesse a mãe da Shayla.

Casa onde ficámos Quintal da casa Cozinha
17 de Janeiro de 2006 (terça-feira)
Depois de uma não muito longa noite de sono, pois descobri que ao contrário das melgas portuguesas que não são grande apreciadoras do meu sangue, as uruguaias devem ter pensado “sangue estrangeiro!!” atacando-me a noite inteira; estava na altura de trabalhar, e que melhor forma de começar o dia caminhando 5km até Cerro Verde para uma das actividades AVISTAMIENTO, que é como quem diz, estar sentada 6 horas por dia (das 9-12h e das 14-17h) sob o sol abrasador do verão, a tentar contar quantas tartarugas estão na água circundante, bem como o número de respirações que fazem.
“ – Os 5km fazem-se bem” diziam eles, pois fazem, 5km não é muito, mas ninguém me avisou que ao sair da povoação havia uma ponte que tínhamos de atravessar todos os dias, que estava a cair de podre. “Ao menos tem um corrimão!”, pensei eu, mas ao aproximar-me não sei o que era pior, pois não só estava completamente enferrujado, como se nos segurássemos esse lado tinha tendência a cair mais. Uma vez, o Patrício pôs-se aos saltos na ponte e íamos caindo todos à água. Outra vez a Rebekita, escorregou e ia perdendo o chinelo. Bem, se caísse à água, duvido que ela o fosse lá buscar. =)
Não é fácil avistar grande coisa nesta imensidão de mar, quanto mais uma cabecita de uma tartaruga que apenas vem à superfície por escassos segundos para respirar, voltando a emergir logo de seguida para se alimentar, nadar, ou simplesmente, descansar.
Enquanto avistávamos as tartarugas, tomávamos nota também das aves que se encontravam ali por perto. Os biguás, eram as que davam mais trabalho pois quando estavam na água a alimentar-se pareciam-se bastante com as tartarugas e tínhamos de ter muita atenção para não os confundir. As gaivotas também eram bastante abundantes, e ocasionalmente, viam-se golfinhos (roazes – Tursiops truncatus) e até mesmo tubarões.
No final do dia, fazia-se novamente a viagem até La Coronilla (mais 5km). Por vezes, almoçava-se mesmo ali em Cerro Verde, outras vezes íamos até casa do Carlitos (a meio caminho entre La Coronilla e Cerro Verde), um pescador que ajudava no Projecto, o que implica que nesses dias andávamos cerca de 15km.
O barco do Carlitos foi apelidado de Karumbita devido ao auxílio na captura das tartarugas, outra das actividades do projecto. Além disso, era também usado na foto-identificação dos roazes, pela Paula Laporta, que está a realizar um projecto de investigação, em parceria com Karumbé.
O seu irmão, Martín (a quem chamávamos Negro), era um dos coordenadores, estando responsável pela parte da captura.
19 de Janeiro de 2006 (quinta-feira)
Pela segunda vez na minha vida, e em anos consecutivos, estive na América do Sul no dia dos meus anos, embora no ano anterior estivesse com a minha irmã no Brasil. Este ano, porém, estava completamente sozinha, isto é, se não considerarmos as cerca de 30-40 pessoas que participavam no projecto. =) LOL =)
Que melhor dia para realizar outra actividade Karumbé, e foi aí, que pela primeira vez, capturei tartarugas (CAPTURA). A teórica é muito fácil. Basicamente, entramos na água com fatos de mergulho e barbatanas, e, com o auxílio de uma rede, e de, mais 2 pessoas, esticamos a rede e as tartarugas, ao nadar, ficam presas na mesma. Duas das pessoas seguram a rede e a terceira, ao ver e sentir a captura, nada até ao local e retira a tartaruga da rede levando-a até terra, onde posteriormente se realizam várias tarefas.


Ao chegar a terra, as tartarugas são marcadas com uns marcadores metálicos devidamente identificados, nas barbatanas anteriores e posteriores, para caso sejam capturadas por pescadores ou investigadores, ou recapturados por Karumbé, se saiba quem era aquela tartaruga. São medidos, tanto o comprimento curvo e a largura da carapaça, como do plastron e o comprimento da cauda. São também pesadas, e retira-se um pouco de pele para análises genéticas.
Tenta-se, ao máximo, retirar as cracas que se encontram sobre o animal, pois o sobredesenvolvimento deste animais pode causar a morte das tartarugas visto as cracas poderem, quando causam demasiado peso, causar o afogamento do animal, visto este não ter força suficiente para vir à superfície respirar.
Se o animal está saudável, volta a ser devolvido ao mar. Caso contrário, é levado para o centro até recuperar e estar em condições de voltar ao seu habitat natural. Aproximadamente de duas em duas semanas, um exemplar saudável também é levado para o centro para estudo comportamentais, uma outra actividade do centro, e também para exposição, aos visitantes e turistas, de forma a aprenderem um pouco mais sobre tartarugas tendo um contacto em primeira-mão com o animal. Decorridas as duas semanas, esse animal também é devolvido ao mar, sendo substituído por outro entretanto capturado.

tartaruga saudável tartaruga doente cracas no plastron
Nessa noite, como não é todos os dias que se faz anos, tive direito a bolo de anos, aos parabéns cantados em 3 línguas diferentes (português, espanhol e inglês), e ainda, a uma prendinha, numa grande festa que se fez no centro.
23 de Janeiro de 2006 (segunda-feira)
Depois de um fim-de-semana de repouso, já que os voluntários têm todo o fim-de-semana livre para fazerem o que quiserem, estava na hora de fazer outras actividade do Projecto MONITOREO (monitorização) e VISITAS GUIDAS. A primeira, já expliquei mais ou menos em que consistia. Em turnos de 2 horas, observava-se o comportamento da tartaruga marinha que se encontrava no centro anotando a hora, minuto e segundo em que esta respirava e comia. Depois escrevia-se também, como e quando se movimentava na água e como era a sua posição quando repousava. Apesar de engraçado, isto podia ser um pouco chato quando a tartaruguita não se mexia durante quase 1hora, ou então, bastante stressante, quando não parava quieta e estava sempre a sair para respirar.

a monitorizar Daisy a respirar Peleona em repouso
O centro estava dividido em 3 partes. A parte das visitas guiadas no exterior, onde se explicavam aos visitantes um pouco da biologia dos 3 tipos de tartarugas existentes e das quais haviam ali exemplares vivos em exibição, as tartarugas terrestres, as aquáticas e as marinhas. Tudo tendo por base a educação e a sensibilização das pessoas em não terem estes animais como animais de estimação pois são animais selvagens. Havia também a parte das visitas guiadas no interior, onde se explicava um pouco sobre a biologia das tartarugas, quais as diferenças entre as espécies existentes no Uruguai, quais os perigos e as ameaças a estes animais, e também sobre como funciona o Projecto, quais as actividades e como as realiza. Por fim, havia ainda, a lojinha de artesanias, onde os visitantes podiam comprar t-shirt’s, camisolas, calendários, autocolantes, pin’s, pulseiras e fios, entre muitas outras coisas, ou apenas deixar um donativo ou até mesmo só o seu contacto, caso quisessem estar a par de mais informações Karumbé.

tartarugas aquáticas tartaruga terrestre tartaruga de couro (montagem)

crânios verdadeiros visita guiada loja de artesanias
26 de Janeiro de 2006 (quinta-feira)
Neste dia, realizei o meu primeiro CENSUS, uma outra actividade Karumbé. Em La Coronilla faziam-se censos para 2 locais. Barra del Chuy (a 30km), que fazia fronteira com o Brasil, e Punta del Diablo (a 20km), um para norte e outro para sul, respectivamente.
Os censos consistiam em andarmos pela praia tentando avistar todos os animais mortos ou vivos arrojados ou encalhados que estavam na costa. Encontrávamos animais desde aves a golfinhos, passando pelas tartarugas e por leões marinhos, sem esquecer os tubarões e raias. Encontrava-se de tudo um pouco, e, a todos eles, tirávamos a localização GPS, tentávamos identificar a espécie e o sexo, mediamos o comprimento total do animal e a largura. Se possível (caso o seu estado de decomposição o permitisse) pesávamo-los. Aos outros animais apenas fazíamos isto e depois levávamo-los para o cimo da praia e enterrávamo-los. Às tartarugas, além disto, ainda fazíamos uma necrópsia, ou seja, abríamos a tartaruga e retirávamos-lhe o conteúdo estomacal e conteúdo das gónadas. Numa necrópsia, chegou-se a encontrar no estômago de uma tartaruga 14 tampas de garrafas de plástico de água.
Acho que dá para ver o tamanho de alguns exemplares que se encontravam. Eram enormes, e enquanto realizávamos a necrópsia o melhor é fugir da direcção do vento porque o cheiro era horrível!

leão marinho ave golfinho (franciscana)
O censo ao Chuy é o pior, pois é o mais comprido. A meio do caminho uma pessoa até já fica farta de ver tanto animal, e quase que queremos fingir que não é nada. E se temos a infelicidade de encontrar mais do uma tartaruga… digamos só que é mau, não só porque não é muito agradável que os animais dêem assim à costa, como cada necrópsia demora entre 1-1h30m.
30km depois, chegámos a Barra del Chuy. Os censos à quinta-feira são feitos aqui e todas as semanas vai um grupo diferente. Ás terças-feiras, o censo é até Punta del Diablo, onde fui na 3ª feira seguinte.
Neste dia, cansados como estávamos só nos apetecia comer qualquer coisa e beber uma cervejinha, então passámos a fronteira para o Brasil e fomos até ao 1º fórum binacional que estava a decorrer no Brasil, ali bem perto da fronteira, e onde estava a decorrer uma conferência de apresentação Karumbé.
Ao fim de umas caipirinhas e outras tantas cervejas, estava na hora de regressar, para tomarmos um bom banho. O problema foi que estávamos no Brasil, ninguém tinha passaporte, e agora tínhamos de voltar 11 pessoas e uma cadela num carro de 5 lugares. Claro que fomos mandados parar pela polícia, mas no espírito da coisa, e como toda a gente conhece o pessoal Karumbé deixaram-nos passar. À noite voltámos lá (em mais do que um carro…) para assistir aos concertos que iriam decorrer.
28 de Janeiro de 2006 (sábado)
Este fim-de-semana decidi ir dar uma volta e passear até Punta del Diablo. Aqui já encontravam mais turistas e mais lojas. La Coronilla não é um ponto muito turístico mas Punta del Diablo já o é. Então aproveitámos para comprar uns souvenirs para nós e para os familiares, como manda a tradição. Eu não podia deixar de comprar algo típico e tradicional do Uruguai, então comprei mate. Algo que os uruguaios bebem durante todo o dia e é impossível não ver alguém agarrado a ele. Mate, por si só, é uma erva, tipo chá, mas não é bem a mesma coisa. Essa erva é colocada dentro de um recipiente, ao qual também se chama de mate. Depois deita-se um pouco de água fria, para misturar a erva e torná-la mais maleável. Depois vai-se deitando água quente e misturando aos poucos, para não queimar a erva. Depois, com o auxílio de uma palhinha (de preferência metálica), vai-se bebendo o mate. Quando chega ao fim, vai-se adicionando mais água quente e assim sucessivamente, por isso, associado ao mate, vemos sempre as pessoas com o seu termo e não sítio onde não haja “água quente para mate”. Há algumas coisinhas que se devem aprender. Apesar de toda a gente ter mata, normalmente quando se está em grupo, a pessoa mais velha é que está encarregue de fazer mate para todos. Ou seja, prepara-o, com o seu próprio termo e mate, e bebe. Depois, quando volta a encher, oferece-o à pessoa que se encontra do seu lado direito. É considerado falta de educação recusar, mas se não pretendermos beber mais, quando acabamos e devolvemos à pessoa que está encarregada de dar aos outros, agradecemos. Se não agradecermos, significa que queremos continuar a beber. No entanto, a próxima vez que o mate for enchido, vai ser para a pessoa que está do lado direito da última que bebeu, e assim sucessivamente, até voltar de novo à pessoa mais idosa. Aí continua o novo ciclo, e se tivermos agradecido, este não nos volta a servir, senão, continuamos a beber mate até agradecermos. Isto é muito bonito como tradição, no entanto não é muito aconselhável quando não se conhece bem as pessoas, pois como é óbvio, podem-se transmitir bastantes doenças desta forma. Mas quem vai ao Uruguai tem de experimentar mate pelo menos uma vez, e depois trazê-lo para Portugal como recordação.

Punta del Diablo
31 de Janeiro de 2006 (terça-feira)
Estava na altura de outro censo, desta vez a Punta del Diablo, e também aqui encontrámos uma variedade de animais, já para não falar das necrópsias.

raia franciscana tubarões
Quando chegámos
aproveitámos para fazer mais umas comprinhas de última hora, e claro tirar mais umas quantas fotografias para a posterioridade.
01 de Fevereiro de 2006 (quarta-feira)
Os dias eram passados assim… a trabalhar, a ir tomar uma cerveja à noite no supermercado, a mandar e-mail no cyber para a família e contar as novidades. Como já disse, La Coronilla, é uma povoação pequena, uma aldeia de pescadores, que recebe apenas alguns turistas, devido ao centro e ao Projecto Karumbé. Uma aldeia pacata, mas que deixa saudades no coração de quem a visita, principalmente por três semanas. No Projecto, além de uma portuguesa (eu!) e os australianos e norte-americanas, e, obviamente, uruguaios, havia também brasileiros, argentinos, chilenos e espanhóis. Uns voluntários, outros assistentes, e ainda os coordenadores. Ao trabalhar pela primeira vez no Projecto, trabalhamos como voluntários, a não ser que estejamos a realizar um trabalho de investigação, mas agora, por exemplo, se eu quisesse voltar, já seria assistente. O trabalho realizado é o mesmo, mas os assistentes apenas têm um dia livre por semana, ao invés do fim-de-semana todo.

Algumas imagens dos dias animados passados na Coronilla, e das fantásticas cervejitas no super. Sim, porque não havia cafés lá, então íamos ao super e sentávamo-nos cá fora a beber e a comer.
04 de Fevereiro de 2006 (sábado)
O dia de ir embora chegou. Apesar de o meu voo Montevideo – São Paulo ser apenas no dia seguinte, mas como me avisaram que os autocarros nem sempre são de fiar, e depois de já ter observado que ao Domingo, por vezes, apesar de dizerem que havia autocarros, estes não apareciam, decidi que era melhor ir um dia mais cedo, não fosse o diabo tecê-las e não chegasse a tempo ao aeroporto para apanhar o avião. Entretanto a minha mãe também me informou, via net, que o meu voo São Paulo – Lisboa tinha sido cancelado, ou seja, iria ficar 1 dia inteiro em São Paulo à espera de outro avião, mas depois resolveria as coisas quando chegasse ao Brasil porque ali não poderia fazer nada.
Então, por volta da hora de almoço, lá apanhei eu o autocarro de volta para Montevideo, onde estávamos à minha espera mais duas coordenadoras do projecto que eu já tinha conhecido ali mas que entretanto tinham voltado para Montevideo, a Fio e a Vicky.
Fomos até à “praia”, e à noite fomos dançar salsa a um clube. Não que eu soubesse dançar muito bem, ou pelo menos, não pensei que dançasse, mas enquanto o fazia, um rapaz de um grupo que se encontrava atrás de mim, mexeu-me e puxou-me suavemente o cabelo. Óbvio que eu não fazia ideia o que ele queria mas elas acabaram por me explicar que ele me estava a convidar para dançar. Como já tinha reparado como é que os sul-americanos dançam salsa e tango, recusei pois iria passar uma vergonha enorme.
Bebemos uns copos, jantámos, quase perdemos o autocarro, e por volta das 5 da manhã fomos para casa da Fio onde dormimos.

Montevideo
05 de Fevereiro de 2006 (domingo)
De manhã fomos dar uma volta pela cidade. À hora de almoço fizemos um pic-nic com o irmão da Vicky e depois chegou a hora de ir embora para o aeroporto. Pelo sim, pelo não, devido ao que me aconteceu na vinda, decidi levar uma muda de roupa na mochila também.
Cheguei a São Paulo e depois de uma fila enorme lá expliquei a minha situação. Uma senhora da companhia aérea foi super simpática comigo e explicou-me tudo o que devia fazer. Eu iria sair do aeroporto e entrar num autocarro que me iria levar a um hotel onde eu ia passar a noite. As refeições todas que fizesse, e a estadia seriam por conta da companhia aérea. Reparei que além de mim, havia outras pessoas nessa situação, portugueses e brasileiros. Ela também me disse que se eu quisesse poderia deixar já as bagagens, ou então levava-as comigo, era indiferente. Como tinha 2 malas e uma delas, basicamente, só tinha o meu equipamento de mergulho deixei essa e levei a outra com a minha roupa.
Saí do aeroporto e fui para o hotel, que era espectacular. Tinha piscina, mas quando cheguei ao hotel já era 1h da manhã portanto não fui para lá. Jantei e fui até ao quarto. Como ainda não tinha dito nada à minha mãe, apesar de não ter dinheiro nenhum comigo, também não tinha bateria no telemóvel e o carregador tinha ficado na mala no aeroporto, arrisquei e liguei para a minha mãe do quarto do hotel, mas como é óbvio ela não atendeu.
06 de Fevereiro de 2006 (segunda-feira)
No dia seguinte, acordei com o telefone a tocar a dizer que tinha uma chamada e se queria receber. Era a minha mãe. O número do hotel tinha ficado gravado no telefone de casa e ela percebeu logo que era eu e ligou-me. Disse-lhe o que me tinham dito. Por volta das 7h da tarde um autocarro iria-me buscar e aos outros passageiros que se encontravam no hotel para irmos até ao aeroporto que o avião saía às 9h da noite com destino a Lisboa e chegaria ao aeroporto da Portela de manhã.
Passei o dia todo na piscina do hotel e às 7h preparei-me para ir embora, mas afinal o avião estava atrasado e só iríamos para o aeroporto por volta das 10h da noite, para sairmos à meia-noite. Assim foi, mas mesmo no aeroporto o avião ainda atrasou 2 horas. Ou seja, só saímos às 2horas da manhã. Eu só rezava para que ao menos as minhas malas fossem comigo no avião.
07 de Fevereiro de 2006 (terça-feira)
Cheguei a Lisboa 1 dia depois do previsto inicialmente e 5 horas depois do previsto posteriormente. Claro que no meio de tudo não pude avisar a minha mãe do atraso e além disso no aeroporto ainda tiveram a lata de lhe dizer que o meu avião não tinha saído do Brasil, então ela ligou para o Brasil para saber se tínhamos saído ou não, ao que lhe confirmaram a saída do avião.
Outra coisa que me apercebi depois, foi de que tanto as minhas sapatilhas, como as camisolas e casacos que tinha levado estavam na mala que tinha deixado no aeroporto, ou seja, cheguei a Portugal, no pico do Inverno, de chinelos e t-shirt. Nunca me senti tão observada no aeroporto de Lisboa.
Sei que a análise de toda a viagem, apesar de tudo o que aconteceu de menos positivo, não podia ter sido melhor. Nunca esquecerei tudo o que aprendi nestas 3 semanas e todas as pessoas que conheci, que apesar de estarem do outro lado do mundo me fizeram sentir especial e como se fosse uma amiga de longa data ou até alguém de família.
A todos os karumbitos, mil beijinhos com muitas saudades… Sei que um dia nos voltaremos a encontrar…












