25 agosto 2006

diário de aventuras...

15 de Janeiro de 2006 (domingo)

No dia 15 de Janeiro de 2006 embarquei num avião rumo a Montevideo (Uruguai) com uma pequena escala de duas horas em São Paulo (Brasil). Como rapariga prevenida que sou, apesar de tal nunca me ter acontecido em todas as minhas viagens, decidi, pela primeira vez, levar uma muda de roupa na minha mochila, pois a bagagem, só a tornaria a ver no Uruguai.

Parece que adivinhei o futuro, e depois de aterrar, finalmente, no país desejado, de já não sei quantas horas de avião de um lado para o outro e de outras tantas à espera em aeroportos, vejo que a minha bagagem não aparece. Olho à minha volta e tirando pouco mais de 20 pessoas, o aeroporto está vazio. Vejo que não sou a única cuja bagagem não aparece e no meu “portunhol” começo a tentar perguntar o que se passou. Finalmente, a resposta: “as suas malas ficaram em São Paulo e vêm no voo amanhã de manhã”.

Ok, depois de tratar de tudo, de deixar um contacto (que hoje sei que já não existe!), de tentar desesperadamente ligar o telemóvel só para dizer que estou viva e que cheguei (e de ver que o meu telemóvel não funciona no Uruguai), saio do aeroporto por volta da 1h da manhã e conheço o Phillip, um dos coordenadores do Projecto Karumbé que ficou de me esperar lá.

Apresentações feitas e explicações dadas pelo atraso, decidimos que é melhor, devido à hora tardia e a toda a situação, ficar em casa da irmã dele até ao dia seguinte e de manhã ir buscar as minhas malas ao aeroporto. Assim foi, e só no dia seguinte, por volta das 9h da manhã é que consegui finalmente ligar para casa para uma mãe preocupada sobre o que se passaria e porque não dava eu notícias.

16 de Janeiro de 2006 (segunda-feira)

Na manhã seguinte, como combinado, lá foi o Phillip buscar-me a casa da irmã e fomos para o aeroporto. Passado meia-hora já tinha as minhas malas e estava na altura de irmos comer qualquer coisa e depois irmos para a estação rodoviária apanhar o autocarro para La Coronilla, esse sim, meu destino final, que ficava a cerca de 5 horas de Montevideo, a cerca de 30km da fronteira com o Brasil.

Como o autocarro só ia partir daí a umas horas, o Phillip levou-me a visitar a cidade, que sendo a capital do país tem sempre muito para ver, e não valia a pena desperdiçar as horas que ainda tinha de esperar. Visitei o centro, em construção, do Projecto, em El Pinar, onde conheci o Cedric, um francês que há muito estava no Uruguai e agora ajudava no Projecto. Depois do almoço vegetariano, cozinhado especialmente para mim, fomos então visitar a cidade, de carro, e principalmente, pela marginal, vendo o Rio da Prata e imaginando que ali, onde a vista não alcançava o horizonte, estava a Argentina e a cidade que eu tanto queria visitar, Buenos Aires. Mas essa visita, fica para outra altura.

A hora aproximou-se e tive de me ir embora. Apesar de ter pesos uruguaios, ainda não os tinha gasto pois foi o Phillip quem comprou o bilhete. Ele disse-me que o autocarro era um expresso e, como tal, não iria fazer muitas paragens. A minha seria a 3ª ou 4ª paragens. Qual não foi o meu espanto ao verificar que na 4ª paragem ainda nem tinham decorrido 2 horas. Afinal não era um expresso, e como não fazia ideia onde estava fui falar com o motorista para me avisar quando fosse a minha paragem. Segundo o Phillip estaria alguém à minha espera em La Coronilla. Mas eu, que devia ter chegado por volta das 22h30m, cheguei às 00h. Não estava ninguém à minha espera e ali onde ele parou, não havia vivalma para lado nenhum, tirando um restaurante, que felizmente estava aberto e para onde me dirigi rapidamente. Expliquei à senhora do restaurante a minha situação e ela disse que o filho dela iria chamar alguém ao centro, alguém do projecto, para me virem buscar.
Passado cerca de meia-hora, lá apareceu a Melissa (uma das coordenadoras), a Irene e o Patrício (assistentes do Projecto). E, realmente, o mundo é muito pequeno, pois ali, do outro lado do mundo, vou encontrar o Patrício, que tinha estado, no ano lectivo anterior a fazer Erasmus na Universidade dos Açores, onde eu estudo… Bem, levaram-me para uma casa, que seria onde ia dormir. Essa casa tinha 3 quartos. Num ficavam 2 coordenadoras do projecto (Isa e Fio), noutro ficava um casal australiano (a Rebecca e o Chris), e noutro ficava eu, a Rebekita (EUA) e a Shayla (EUA), embora na primeira semana também lá estivesse a mãe da Shayla.

Casa onde ficámos Quintal da casa Cozinha

17 de Janeiro de 2006 (terça-feira)

Depois de uma não muito longa noite de sono, pois descobri que ao contrário das melgas portuguesas que não são grande apreciadoras do meu sangue, as uruguaias devem ter pensado “sangue estrangeiro!!” atacando-me a noite inteira; estava na altura de trabalhar, e que melhor forma de começar o dia caminhando 5km até Cerro Verde para uma das actividades AVISTAMIENTO, que é como quem diz, estar sentada 6 horas por dia (das 9-12h e das 14-17h) sob o sol abrasador do verão, a tentar contar quantas tartarugas estão na água circundante, bem como o número de respirações que fazem.

“ – Os 5km fazem-se bem” diziam eles, pois fazem, 5km não é muito, mas ninguém me avisou que ao sair da povoação havia uma ponte que tínhamos de atravessar todos os dias, que estava a cair de podre. “Ao menos tem um corrimão!”, pensei eu, mas ao aproximar-me não sei o que era pior, pois não só estava completamente enferrujado, como se nos segurássemos esse lado tinha tendência a cair mais. Uma vez, o Patrício pôs-se aos saltos na ponte e íamos caindo todos à água. Outra vez a Rebekita, escorregou e ia perdendo o chinelo. Bem, se caísse à água, duvido que ela o fosse lá buscar. =)

Não é fácil avistar grande coisa nesta imensidão de mar, quanto mais uma cabecita de uma tartaruga que apenas vem à superfície por escassos segundos para respirar, voltando a emergir logo de seguida para se alimentar, nadar, ou simplesmente, descansar.
Enquanto avistávamos as tartarugas, tomávamos nota também das aves que se encontravam ali por perto. Os biguás, eram as que davam mais trabalho pois quando estavam na água a alimentar-se pareciam-se bastante com as tartarugas e tínhamos de ter muita atenção para não os confundir. As gaivotas também eram bastante abundantes, e ocasionalmente, viam-se golfinhos (roazes – Tursiops truncatus) e até mesmo tubarões.

No final do dia, fazia-se novamente a viagem até La Coronilla (mais 5km). Por vezes, almoçava-se mesmo ali em Cerro Verde, outras vezes íamos até casa do Carlitos (a meio caminho entre La Coronilla e Cerro Verde), um pescador que ajudava no Projecto, o que implica que nesses dias andávamos cerca de 15km.

O barco do Carlitos foi apelidado de Karumbita devido ao auxílio na captura das tartarugas, outra das actividades do projecto. Além disso, era também usado na foto-identificação dos roazes, pela Paula Laporta, que está a realizar um projecto de investigação, em parceria com Karumbé.
O seu irmão, Martín (a quem chamávamos Negro), era um dos coordenadores, estando responsável pela parte da captura.

19 de Janeiro de 2006 (quinta-feira)

Pela segunda vez na minha vida, e em anos consecutivos, estive na América do Sul no dia dos meus anos, embora no ano anterior estivesse com a minha irmã no Brasil. Este ano, porém, estava completamente sozinha, isto é, se não considerarmos as cerca de 30-40 pessoas que participavam no projecto. =) LOL =)
Que melhor dia para realizar outra actividade Karumbé, e foi aí, que pela primeira vez, capturei tartarugas (CAPTURA). A teórica é muito fácil. Basicamente, entramos na água com fatos de mergulho e barbatanas, e, com o auxílio de uma rede, e de, mais 2 pessoas, esticamos a rede e as tartarugas, ao nadar, ficam presas na mesma. Duas das pessoas seguram a rede e a terceira, ao ver e sentir a captura, nada até ao local e retira a tartaruga da rede levando-a até terra, onde posteriormente se realizam várias tarefas.


Ao chegar a terra, as tartarugas são marcadas com uns marcadores metálicos devidamente identificados, nas barbatanas anteriores e posteriores, para caso sejam capturadas por pescadores ou investigadores, ou recapturados por Karumbé, se saiba quem era aquela tartaruga. São medidos, tanto o comprimento curvo e a largura da carapaça, como do plastron e o comprimento da cauda. São também pesadas, e retira-se um pouco de pele para análises genéticas.

Tenta-se, ao máximo, retirar as cracas que se encontram sobre o animal, pois o sobredesenvolvimento deste animais pode causar a morte das tartarugas visto as cracas poderem, quando causam demasiado peso, causar o afogamento do animal, visto este não ter força suficiente para vir à superfície respirar.
Se o animal está saudável, volta a ser devolvido ao mar. Caso contrário, é levado para o centro até recuperar e estar em condições de voltar ao seu habitat natural. Aproximadamente de duas em duas semanas, um exemplar saudável também é levado para o centro para estudo comportamentais, uma outra actividade do centro, e também para exposição, aos visitantes e turistas, de forma a aprenderem um pouco mais sobre tartarugas tendo um contacto em primeira-mão com o animal. Decorridas as duas semanas, esse animal também é devolvido ao mar, sendo substituído por outro entretanto capturado.

tartaruga saudável tartaruga doente cracas no plastron

Nessa noite, como não é todos os dias que se faz anos, tive direito a bolo de anos, aos parabéns cantados em 3 línguas diferentes (português, espanhol e inglês), e ainda, a uma prendinha, numa grande festa que se fez no centro.

23 de Janeiro de 2006 (segunda-feira)

Depois de um fim-de-semana de repouso, já que os voluntários têm todo o fim-de-semana livre para fazerem o que quiserem, estava na hora de fazer outras actividade do Projecto MONITOREO (monitorização) e VISITAS GUIDAS. A primeira, já expliquei mais ou menos em que consistia. Em turnos de 2 horas, observava-se o comportamento da tartaruga marinha que se encontrava no centro anotando a hora, minuto e segundo em que esta respirava e comia. Depois escrevia-se também, como e quando se movimentava na água e como era a sua posição quando repousava. Apesar de engraçado, isto podia ser um pouco chato quando a tartaruguita não se mexia durante quase 1hora, ou então, bastante stressante, quando não parava quieta e estava sempre a sair para respirar.

a monitorizar Daisy a respirar Peleona em repouso

O centro estava dividido em 3 partes. A parte das visitas guiadas no exterior, onde se explicavam aos visitantes um pouco da biologia dos 3 tipos de tartarugas existentes e das quais haviam ali exemplares vivos em exibição, as tartarugas terrestres, as aquáticas e as marinhas. Tudo tendo por base a educação e a sensibilização das pessoas em não terem estes animais como animais de estimação pois são animais selvagens. Havia também a parte das visitas guiadas no interior, onde se explicava um pouco sobre a biologia das tartarugas, quais as diferenças entre as espécies existentes no Uruguai, quais os perigos e as ameaças a estes animais, e também sobre como funciona o Projecto, quais as actividades e como as realiza. Por fim, havia ainda, a lojinha de artesanias, onde os visitantes podiam comprar t-shirt’s, camisolas, calendários, autocolantes, pin’s, pulseiras e fios, entre muitas outras coisas, ou apenas deixar um donativo ou até mesmo só o seu contacto, caso quisessem estar a par de mais informações Karumbé.

tartarugas aquáticas tartaruga terrestre tartaruga de couro (montagem)

crânios verdadeiros visita guiada loja de artesanias

26 de Janeiro de 2006 (quinta-feira)

Neste dia, realizei o meu primeiro CENSUS, uma outra actividade Karumbé. Em La Coronilla faziam-se censos para 2 locais. Barra del Chuy (a 30km), que fazia fronteira com o Brasil, e Punta del Diablo (a 20km), um para norte e outro para sul, respectivamente.
Os censos consistiam em andarmos pela praia tentando avistar todos os animais mortos ou vivos arrojados ou encalhados que estavam na costa. Encontrávamos animais desde aves a golfinhos, passando pelas tartarugas e por leões marinhos, sem esquecer os tubarões e raias. Encontrava-se de tudo um pouco, e, a todos eles, tirávamos a localização GPS, tentávamos identificar a espécie e o sexo, mediamos o comprimento total do animal e a largura. Se possível (caso o seu estado de decomposição o permitisse) pesávamo-los. Aos outros animais apenas fazíamos isto e depois levávamo-los para o cimo da praia e enterrávamo-los. Às tartarugas, além disto, ainda fazíamos uma necrópsia, ou seja, abríamos a tartaruga e retirávamos-lhe o conteúdo estomacal e conteúdo das gónadas. Numa necrópsia, chegou-se a encontrar no estômago de uma tartaruga 14 tampas de garrafas de plástico de água.

Acho que dá para ver o tamanho de alguns exemplares que se encontravam. Eram enormes, e enquanto realizávamos a necrópsia o melhor é fugir da direcção do vento porque o cheiro era horrível!

leão marinho ave golfinho (franciscana)

O censo ao Chuy é o pior, pois é o mais comprido. A meio do caminho uma pessoa até já fica farta de ver tanto animal, e quase que queremos fingir que não é nada. E se temos a infelicidade de encontrar mais do uma tartaruga… digamos só que é mau, não só porque não é muito agradável que os animais dêem assim à costa, como cada necrópsia demora entre 1-1h30m.

30km depois, chegámos a Barra del Chuy. Os censos à quinta-feira são feitos aqui e todas as semanas vai um grupo diferente. Ás terças-feiras, o censo é até Punta del Diablo, onde fui na 3ª feira seguinte.

Neste dia, cansados como estávamos só nos apetecia comer qualquer coisa e beber uma cervejinha, então passámos a fronteira para o Brasil e fomos até ao 1º fórum binacional que estava a decorrer no Brasil, ali bem perto da fronteira, e onde estava a decorrer uma conferência de apresentação Karumbé.

Ao fim de umas caipirinhas e outras tantas cervejas, estava na hora de regressar, para tomarmos um bom banho. O problema foi que estávamos no Brasil, ninguém tinha passaporte, e agora tínhamos de voltar 11 pessoas e uma cadela num carro de 5 lugares. Claro que fomos mandados parar pela polícia, mas no espírito da coisa, e como toda a gente conhece o pessoal Karumbé deixaram-nos passar. À noite voltámos lá (em mais do que um carro…) para assistir aos concertos que iriam decorrer.

28 de Janeiro de 2006 (sábado)

Este fim-de-semana decidi ir dar uma volta e passear até Punta del Diablo. Aqui já encontravam mais turistas e mais lojas. La Coronilla não é um ponto muito turístico mas Punta del Diablo já o é. Então aproveitámos para comprar uns souvenirs para nós e para os familiares, como manda a tradição. Eu não podia deixar de comprar algo típico e tradicional do Uruguai, então comprei mate. Algo que os uruguaios bebem durante todo o dia e é impossível não ver alguém agarrado a ele. Mate, por si só, é uma erva, tipo chá, mas não é bem a mesma coisa. Essa erva é colocada dentro de um recipiente, ao qual também se chama de mate. Depois deita-se um pouco de água fria, para misturar a erva e torná-la mais maleável. Depois vai-se deitando água quente e misturando aos poucos, para não queimar a erva. Depois, com o auxílio de uma palhinha (de preferência metálica), vai-se bebendo o mate. Quando chega ao fim, vai-se adicionando mais água quente e assim sucessivamente, por isso, associado ao mate, vemos sempre as pessoas com o seu termo e não sítio onde não haja “água quente para mate”. Há algumas coisinhas que se devem aprender. Apesar de toda a gente ter mata, normalmente quando se está em grupo, a pessoa mais velha é que está encarregue de fazer mate para todos. Ou seja, prepara-o, com o seu próprio termo e mate, e bebe. Depois, quando volta a encher, oferece-o à pessoa que se encontra do seu lado direito. É considerado falta de educação recusar, mas se não pretendermos beber mais, quando acabamos e devolvemos à pessoa que está encarregada de dar aos outros, agradecemos. Se não agradecermos, significa que queremos continuar a beber. No entanto, a próxima vez que o mate for enchido, vai ser para a pessoa que está do lado direito da última que bebeu, e assim sucessivamente, até voltar de novo à pessoa mais idosa. Aí continua o novo ciclo, e se tivermos agradecido, este não nos volta a servir, senão, continuamos a beber mate até agradecermos. Isto é muito bonito como tradição, no entanto não é muito aconselhável quando não se conhece bem as pessoas, pois como é óbvio, podem-se transmitir bastantes doenças desta forma. Mas quem vai ao Uruguai tem de experimentar mate pelo menos uma vez, e depois trazê-lo para Portugal como recordação.

Punta del Diablo

31 de Janeiro de 2006 (terça-feira)

Estava na altura de outro censo, desta vez a Punta del Diablo, e também aqui encontrámos uma variedade de animais, já para não falar das necrópsias.

raia franciscana tubarões

Quando chegámos aproveitámos para fazer mais umas comprinhas de última hora, e claro tirar mais umas quantas fotografias para a posterioridade.

01 de Fevereiro de 2006 (quarta-feira)

Os dias eram passados assim… a trabalhar, a ir tomar uma cerveja à noite no supermercado, a mandar e-mail no cyber para a família e contar as novidades. Como já disse, La Coronilla, é uma povoação pequena, uma aldeia de pescadores, que recebe apenas alguns turistas, devido ao centro e ao Projecto Karumbé. Uma aldeia pacata, mas que deixa saudades no coração de quem a visita, principalmente por três semanas. No Projecto, além de uma portuguesa (eu!) e os australianos e norte-americanas, e, obviamente, uruguaios, havia também brasileiros, argentinos, chilenos e espanhóis. Uns voluntários, outros assistentes, e ainda os coordenadores. Ao trabalhar pela primeira vez no Projecto, trabalhamos como voluntários, a não ser que estejamos a realizar um trabalho de investigação, mas agora, por exemplo, se eu quisesse voltar, já seria assistente. O trabalho realizado é o mesmo, mas os assistentes apenas têm um dia livre por semana, ao invés do fim-de-semana todo.


Algumas imagens dos dias animados passados na Coronilla, e das fantásticas cervejitas no super. Sim, porque não havia cafés lá, então íamos ao super e sentávamo-nos cá fora a beber e a comer.

04 de Fevereiro de 2006 (sábado)

O dia de ir embora chegou. Apesar de o meu voo Montevideo – São Paulo ser apenas no dia seguinte, mas como me avisaram que os autocarros nem sempre são de fiar, e depois de já ter observado que ao Domingo, por vezes, apesar de dizerem que havia autocarros, estes não apareciam, decidi que era melhor ir um dia mais cedo, não fosse o diabo tecê-las e não chegasse a tempo ao aeroporto para apanhar o avião. Entretanto a minha mãe também me informou, via net, que o meu voo São Paulo – Lisboa tinha sido cancelado, ou seja, iria ficar 1 dia inteiro em São Paulo à espera de outro avião, mas depois resolveria as coisas quando chegasse ao Brasil porque ali não poderia fazer nada.
Então, por volta da hora de almoço, lá apanhei eu o autocarro de volta para Montevideo, onde estávamos à minha espera mais duas coordenadoras do projecto que eu já tinha conhecido ali mas que entretanto tinham voltado para Montevideo, a Fio e a Vicky.

Fomos até à “praia”, e à noite fomos dançar salsa a um clube. Não que eu soubesse dançar muito bem, ou pelo menos, não pensei que dançasse, mas enquanto o fazia, um rapaz de um grupo que se encontrava atrás de mim, mexeu-me e puxou-me suavemente o cabelo. Óbvio que eu não fazia ideia o que ele queria mas elas acabaram por me explicar que ele me estava a convidar para dançar. Como já tinha reparado como é que os sul-americanos dançam salsa e tango, recusei pois iria passar uma vergonha enorme.
Bebemos uns copos, jantámos, quase perdemos o autocarro, e por volta das 5 da manhã fomos para casa da Fio onde dormimos.

Montevideo

05 de Fevereiro de 2006 (domingo)

De manhã fomos dar uma volta pela cidade. À hora de almoço fizemos um pic-nic com o irmão da Vicky e depois chegou a hora de ir embora para o aeroporto. Pelo sim, pelo não, devido ao que me aconteceu na vinda, decidi levar uma muda de roupa na mochila também.

Cheguei a São Paulo e depois de uma fila enorme lá expliquei a minha situação. Uma senhora da companhia aérea foi super simpática comigo e explicou-me tudo o que devia fazer. Eu iria sair do aeroporto e entrar num autocarro que me iria levar a um hotel onde eu ia passar a noite. As refeições todas que fizesse, e a estadia seriam por conta da companhia aérea. Reparei que além de mim, havia outras pessoas nessa situação, portugueses e brasileiros. Ela também me disse que se eu quisesse poderia deixar já as bagagens, ou então levava-as comigo, era indiferente. Como tinha 2 malas e uma delas, basicamente, só tinha o meu equipamento de mergulho deixei essa e levei a outra com a minha roupa.

Saí do aeroporto e fui para o hotel, que era espectacular. Tinha piscina, mas quando cheguei ao hotel já era 1h da manhã portanto não fui para lá. Jantei e fui até ao quarto. Como ainda não tinha dito nada à minha mãe, apesar de não ter dinheiro nenhum comigo, também não tinha bateria no telemóvel e o carregador tinha ficado na mala no aeroporto, arrisquei e liguei para a minha mãe do quarto do hotel, mas como é óbvio ela não atendeu.

06 de Fevereiro de 2006 (segunda-feira)

No dia seguinte, acordei com o telefone a tocar a dizer que tinha uma chamada e se queria receber. Era a minha mãe. O número do hotel tinha ficado gravado no telefone de casa e ela percebeu logo que era eu e ligou-me. Disse-lhe o que me tinham dito. Por volta das 7h da tarde um autocarro iria-me buscar e aos outros passageiros que se encontravam no hotel para irmos até ao aeroporto que o avião saía às 9h da noite com destino a Lisboa e chegaria ao aeroporto da Portela de manhã.

Passei o dia todo na piscina do hotel e às 7h preparei-me para ir embora, mas afinal o avião estava atrasado e só iríamos para o aeroporto por volta das 10h da noite, para sairmos à meia-noite. Assim foi, mas mesmo no aeroporto o avião ainda atrasou 2 horas. Ou seja, só saímos às 2horas da manhã. Eu só rezava para que ao menos as minhas malas fossem comigo no avião.

07 de Fevereiro de 2006 (terça-feira)

Cheguei a Lisboa 1 dia depois do previsto inicialmente e 5 horas depois do previsto posteriormente. Claro que no meio de tudo não pude avisar a minha mãe do atraso e além disso no aeroporto ainda tiveram a lata de lhe dizer que o meu avião não tinha saído do Brasil, então ela ligou para o Brasil para saber se tínhamos saído ou não, ao que lhe confirmaram a saída do avião.

Outra coisa que me apercebi depois, foi de que tanto as minhas sapatilhas, como as camisolas e casacos que tinha levado estavam na mala que tinha deixado no aeroporto, ou seja, cheguei a Portugal, no pico do Inverno, de chinelos e t-shirt. Nunca me senti tão observada no aeroporto de Lisboa.

Sei que a análise de toda a viagem, apesar de tudo o que aconteceu de menos positivo, não podia ter sido melhor. Nunca esquecerei tudo o que aprendi nestas 3 semanas e todas as pessoas que conheci, que apesar de estarem do outro lado do mundo me fizeram sentir especial e como se fosse uma amiga de longa data ou até alguém de família.
A todos os karumbitos, mil beijinhos com muitas saudades… Sei que um dia nos voltaremos a encontrar…

20 agosto 2006

Tartarugas Marinhas do Uruguai

No Uruguai existem 4 espécies de tartarugas marinhas:

  • Dermochelys coriacea (português: tartaruga de couro; espanhol: sete quillas).

Identificação
A tartaruga de couro é a maior de todas as tartarugas marinhas, atingindo entre os 150 e os 170cm de comprimento de carapaça e pesando até 500kg (embora já tenha sido encontrado um exemplar com 900kg). A sua carapaça é única, na medida em que, em vez de placas duras, é coberta por uma camada contínua de pele fina e possui uma série de sulcos longitudinais (7 na região dorsal e 5 na face ventral). Outras características distintivas desta espécie são a ausência de unhas, as suas grandes barbatanas (cerca de 1m nos adultos) e o reduzido esqueleto, já que muitos ossos presentes na carapaça das outras tartarugas estão ausentes na tartarugas de couro. A cabeça dos adultos é pequena em relação ao comprimento da carapaça, sendo esta redonda e desprovida de placas. O bico, apesar de frágil tem as extremidades aguçadas e a mandíbula superior apresenta a forma de w quando vista de frente. Os adultos possuem uma coloração negra, possuindo muitas vezes manchas brancas. Os machos distinguem-se das fêmeas principalmente pela cauda mais longa, além disso, as fêmeas possuem uma mancha rosada no cimo da cabeça.

Biologia
Estas tartarugas são basicamente pelágicas e apenas se aproximam da costa durante as épocas de reprodução. A dieta alimentar dos recém-nascidos e juvenis não é muito conhecida, assumindo-se que têm uma dieta carnívora durante todo o seu ciclo de vida. Os adultos alimentam-se principalmente de medusas, tunicados e outros invertebrados epipelágicos de corpo mole, abundantes em zonas de upwelling e de correntes de convergência. Embora se alimente basicamente destes organismos, esta tartarugas desce frequentemente a águas profundas, estando fisiologicamente bem adaptada para o fazer. Ao contrário da maioria das tartarugas marinhas que nidificam durante a Primavera e o Verão, esta normalmente nidifica durante o Outono e o Inverno, emergindo em grandes grupos nos locais da desova. As praias de desova caracterizam-se pela ausência de recifes, pelos declives acentuados que facilitam o acesso a estes animais e por se localizarem perto de águas oceânicas profundas. Os ninhos são geralmente construídos ao longo da linha da preia-mar e muitas vezes abaixo desta, o que pode ter consequências graves nas posturas devido à destruição por parte da acção das ondas e marés vivas. Dermochelys coriacea tem um ciclo de nidificação de 2 a 3 anos. As fêmeas geralmente fazem 4 a 5 (menos frequente 6 ou 7) posturas em cada estação reprodutiva, com intervalos de 10 dias, depositando 60 a 130 ovos de cada vez. A incubação varia entre 50 e 78 dias e está relacionada com a temperatura e a humidade do local. Em ambientes quentes e secos o período de incubação é mais curto com uma menor taxa de sobrevivência. A eclosão dos recém-nascidos acontece, na maioria das vezes, durante a noite. À semelhança do que acontece com as outras tartarugas, os ovos e recém-nascidos são predados por uma variedade de organismos, sendo, ainda assim, demasiado grandes para os pequenos predadores. Os juvenis e adultos são predados por tubarões e por orcas.

Distribuição
As tartarugas de couro adultas estão adaptadas a águas mais frias do que as outras tartarugas, por isso a sua distribuição é mais ampla, havendo numerosos registos da espécie em latitudes elevadas, distantes das zonas tropicais e subtropicais de desova. As principais praias de nidificação no Atlântico localizam-se no Caribe e na costa da América do sul, havendo algumas praias de desova solitárias espalhadas ao longo da costa africana. No Mediterrâneo não existem registos recentes de nidificação. Em Portugal, existem vários registos de adultos, a maioria capturada acidentalmente nas redes de pesca.
Existem 2 subespécies: Dermochelys coriacea coriacea no Atlântico e Dermochelys coriacea schlegelii no Pacífico, separadas principalmente pelos diferentes padrões de distribuição geográfica, mas também por caracteres morfológicos (tamanho da cabeça e do corpo) e pela coloração, acreditando-se que a quantidade de manchas brancas que cobrem o corpo seja significativamente diferente nas duas populações.

  • Chelonia mydas (tartaruga verde)

Identificação
Chega a atingir 139cm de comprimento curvo da carapaça e 235kg de peso, representando, deste modo, a maior tartarugas marinha de carapaça rígida. Em geral, os machos são mais pequenos que as fêmeas. As características que a distinguem das outras tartarugas são a sua cabeça pequena e redonda e a carapaça sem rugosidades. A cabeça possui um par de placas pré-frontais alongadas, enquanto que a carapaça apresenta 4 pares de placas costais, 5 placas vertebrais e 12 pares de marginais. Ventralmente possui 4 pares de placas ingramarginais desprovidas de poros. Cada barbatana contém uma única unha visível. Nos adultos, a cor da carapaça varia desde o preto acinzentado até ao castanho ou esverdeado, podendo apresentar traços radiais ou manchas. O plastron (ventre) é, geralmente, branco ou amarelado.

Biologia
Os recém-nascidos deixam a praia e deslocam-se para o mar aberto, onde passam a primeira etapa da sua vida. Quando atingem os 20-25cm de comprimento deixam o habitat pelágico e entram nas áreas bentónicas de alimentação, que se localizam normalmente em locais abrigados e pouco profundos, ricos em algas e fanerogâmicas marinhas. A maturidade sexual é atingida entre os 20 e os 50 anos. Quando adultas, realizam migrações sazonais entre as zonas de alimentação e as áreas de desova, as quais se podem localizar a mais de 2000km de distância. O intervalo entre as migrações de desova sucessivas é de 2 a 4 anos, mas ocasionalmente existem fêmeas que desovam em anos sucessivos. O acasalamento ocorre no mar, ao largo das praias de nidificação. A fertilização dos ovos depositados em cada ano parece ocorrer em estações reprodutivas anteriores. Em cada estação, as fêmeas colocam 1 a 7 posturas, separadas por intervalos de 12 a 14 dias. O número médio de posturas é de 110 a 115 ovos e o tempo de incubação varia entre 48 a 70 dias, dependendo da temperatura e humidade do local. A eclosão dos ovos começa durante a noite e cessa quando a areia começa a aquecer. Os recém-nascidos do mesmo ninho emergem simultaneamente, deslocam-se rapidamente para a zona de rebentação e nadam freneticamente para o mar aberto.
Estas tartarugas são essencialmente herbívoras quando adultas. A dieta dos recém-nascidos e juvenis durante a fase pelágica é praticamente desconhecida, supondo-se que sejam carnívoras (o que lhes assegura uma taxa de crescimento mais) e que se tornem progressivamente herbívoros à medida que ganham tamanho suficiente para evitar a maior parte dos predadores.

Distribuição
Têm uma distribuição ampla, ocorrendo na maior parte dos mares tropicais e subtropicais, perto de costas continentais ou à volta de ilhas. Raramente ocorre em águas temperadas. As principais praias de desova da população do Atlântico localizam-se na Costa Rica (na Praia do Tortuguero), Venezuela, Suriname, nordeste brasileiro, Ilhas Ascenção e Cabo Verde. No Mediterrâneo existem pequenas colónias reprodutoras no sul da Turquia e uma na costa leste do Chipre. Existem dois registos de tartarugas verdes capturadas na Madeira, ambos juvenis de 30.4 e 43.5cm de comprimento.
Estão descritas duas subespécies: Chelonia mydas mydas do Atlântico e Chelonia mydas japonica do Índico e Pacífico, separadas principalmente pela sua distribuição geográfica e por determinadas características morfológicas e comportamentais.

  • Caretta caretta (português: cabeçuda; espanhol: cabezona)

Identificação
Cabeça com dois pares de placas pré-frontais e, normalmente, uma inter pré-frontal. Bico unguloso mais forte do que em outras tartarugas. Carapaça com uma razão de largura por comprimento entre 83 e 93%. Escudos da carapaça finos, mas duros e ásperos, frequentemente cobertos com cracas. 5 pares de placas costais, o anterior tocando a placa da nuca. 5 pares de placas vertebrais e, normalmente, 12 a 13 placas marginais incluindo as pós-centrais. Plastron com 3 pares de inframarginais que raramente têm poros. Barbatanas anteriores relativamente curtas e grossas, cada uma com 2 unhas visíveis na margem anterior.
Na Madeira todos os exemplares (salvo algumas excepções) são juvenis com comprimentos de carapaça curvados entre 174 e 675mm (comprimento direito "SCL" de 148-620mm) em comparação ao comprimento médio de animais adultos de 920mm e máximo de 1220mm. Em termos de peso as tartarugas na Madeira pesam entre 0.25 a 32Kg.
Nos juvenis, especialmente nos mais pequenos, as placas da carapaça, principalmente os escudos ou placas vertebrais têm quilhas muito marcadas alongadas em sentido caudal, ficando a carapaça com um aspecto serrado quando vista lateralmente.
O dimorfismo sexual é pouco acentuado, não sendo normalmente possível a distinção dos sexos, especialmente em juvenis. Em adultos os machos têm caudas comparativamente mais longas e o plastron ligeiramente côncavo.

Biologia
Os adultos têm hábitos costeiros embora possam fazer migrações muito longas que passam por alto mar. Os juvenis e sub-adultos são normalmente pelágicos, ou seja, habitam quase exclusivamente o mar alto.
O acasalamento acontece no mar, perto das praias de nidificação. No Atlântico Norte as praias reprodutoras encontram-se somente nas costas do norte da América do Sul, Caribenhas e Norte-Americanas. Aproximadamente 90% das tartarugas da Madeira nasceram em praias da Florida, nos Estados Unidos da América. Não há registos de nidificação nas costas europeias atlânticas, ocorrendo, no entanto, no Mediterrâneo, especialmente Turquia., mas também Grécia e Itália e outros.
A postura é depositada quase sempre de noite em ninhos escavados pela fêmea em solo arenoso ao abrigo da maré alta. O número de posturas é de 58 a 174 ovos, podendo a mesma fêmea pôr até 7 posturas sucessivas numa época reprodutora activa, cada postura separada por um intervalo médio de 13 dias. Em geral as fêmeas nidificam cada 2 a 3 anos.
O tempo de incubação é de 49 a 64 dias. A temperatura de incubação determina o sexo dos recém-nascidos. A saída dos jovens do ninho acontece de noite, dirigindo-se ao mar aberto. Subdivide-se o ciclo de vida das tartarugas marinhas em 4 fases:
1 – fase de recém-nascido (os primeiros meses);
2 – fase juvenil pelágica (15-30 anos em mar aberto);
3 – fase juvenil costeira (1-2 anos);
4 – fase adulta (a partir da maturidade sexual até à morte).
A taxa de crescimento depende da data de eclosão, entre outras variáveis, alcançando os 185 a 200mm de comprimento de carapaça depois de 13-16 meses. As tartarugas mais pequenas capturadas na Madeira têm portanto aproximadamente 1 ano de idade ou menos. A idade da maturação é estimada entre 15 a 30 anos com uma média de 920mm de comprimento de carapaça direito.
O alimento é bastante variado, sendo os adultos principalmente bentónicos comendo moluscos e crustáceos. Os juvenis e sub-adultos pelágicos alimentam-se principalmente de celenterados (alforrecas), tunicados e cefalópodes (lulas e polvos).

Distribuição
Tem uma distribuição ampla ocorrendo em todos os mares quentes ou temperados. Com excepção da tartaruga de couro é a tartaruga marinha que frequenta águas mais temperadas, tendo sido capturada desde New England até a Argentina. Os juvenis e sub-adultos capturados na Madeira e nos Açores são na sua grande maioria oriundos de praias reprodutoras americanas, não se excluindo que alguns provenham do Mediterrâneo. Estes animais circulam no sistema de correntes do Atlântico Norte até à maturidade, altura em regressam às costas natais.
Estão descritas duas subespécies: Caretta caretta caretta do Atlântico e Caretta caretta gigas do Pacífico, ligeiramente maior. No entanto o estatuto de subespécie parece carecer de justificação genética e anatómica.

  • Lepidochelys olivacea (português: tartaruga-oliva, espanhol: olivacea)

Identificação
A tartaruga olivacea é por vezes confundida com a tartaruga de kemp (Lepidochelys kempii), devido às suas semelhanças morfológicas. O número de placas da cabeça e da carapaça é semelhante nas duas espécies, embora a tartaruga olivacea possa apresentar mais do que 5 placas costais. As placas inframarginais nesta espécie também possuem um poro na sua margem posterior. O corpo é menos achatado do que o da sua congénere e a carapaça apresenta as margens laterais voltadas para cima e o topo achatado. Tal como na tartaruga de Kemp, a carapaça tem uma forma quase redonda (a largura corresponde a cerca de 90 % do seu comprimento). A cabeça é subtriangular e mede cerca de 22.4 % do comprimento direito do corpo. Cada barbatana anterior possui 1 a 2 unhas visíveis e as posteriores apresentam duas unhas.

Biologia
Como acontece com outras tartarugas marinhas, existem poucas observações da espécie durante o estado juvenil. Pensa-se que os recém nascidos são dispersos passivamente por fortes correntes e transportados para locais distantes das áreas de nidificação. Anos mais tarde, pouco antes de atingirem a maturidade sexual, começam a aproximar-se das áreas costeiras de alimentação e de desova. Os adultos alimentam-se em águas pouco profundas e a sua migração entre estas zonas de alimentação e as praias de desova faz-se ao longo da plataforma continental, utilizando, por vezes, as correntes oceânicas dominantes. Durante a migração, são geralmente observados em grandes grupos, sendo também usual observar-se milhares destas tartarugas a flutuar em frente à praia de nidificação. Foi provavelmente a espécie mais abundante de todas as tartarugas marinhas. Actualmente ainda existem algumas praias de desova onde se registam sazonalmente grandes concentrações destes animais. Estas praias estão geralmente localizadas em áreas isoladas, algumas delas separadas do continente por lagunas costeiras. As tartarugas olivaceas agregam-se em frente às praias de nidificação no início do Verão e alguns dias mais tarde, milhares de tartarugas invadem a praia para desovar. Esta "arribada" tem início durante a tarde (quando a areia começa a arrefecer) e aumenta de número até atingir um máximo por volta da meia noite; depois as tartarugas começam a deixar a praia até à manhã seguinte. A desova pode estender-se por dois ou três dias e repete-se mensalmente até ao final do Outono. Cada fêmea coloca em média 109 ovos e o tempo de incubação é em geral, entre 45 a 65 dias. O acasalamento acontece durante a migração ou perto da praia de desova (antes ou ao longo do período de desova). A maior parte das fêmeas (cerca de 60 %) nidifica anualmente, e, embora utilizem geralmente a mesma praia em anos consecutivos, existem alguns registos de tartarugas a desovar em praias distintas, perto ou afastadas da original. A idade da maturidade sexual é desconhecida. Por ser uma das menores tartarugas marinhas, a maturidade deve ser atingida cedo, quando estas possuem cerca de 62 cm de comprimento direito da carapaça.
Como acontece com as outras espécies de tartarugas marinhas, o sucesso de eclosão dos ovos depende directa ou indirectamente das perturbações da praia por acção do homem, de tempestades, inundações, erosão, compactação da areia, invasão por fungos ou bactérias e predação. A hora do dia em que se dá a eclosão também afecta a taxa de sobrevivência dos recém-nascidos: geralmente a eclosão tem lugar entre a tarde e o início da manhã. Fora destas horas, os recém nascidos são mais facilmente predados ou dessecados pelo Sol ou pela areia antes de atingirem a zona da rebentação. Durante o dia os principais predadores são aves e mamíferos. À noite a predação diminui, sendo no entanto, desempenhada por uma variedade de mamíferos nocturnos. Outro tipo de predadores dos ovos e dos recém nascidos, são certas espécies de lagartos e cobras. Outros predadores sempre presentes são os caranguejos, que por vezes se encontram aos milhares nas praias de desova. No mar, as pequenas tartarugas são comidas por aves marinhas e por peixes. Durante a fase juvenil, estas tartarugas podem ser predadas por grandes peixes ósseos e por pequenos tubarões, enquanto que os adultos apenas são comidos por tubarões. Os adultos nas praias de nidificação podem ser mortos por cães, jacarés, jaguares, tigres e outros predadores, embora a predação por felinos tenha diminuído acentuadamente nos últimos tempos.
A dieta alimentar dos adultos é variada, embora em algumas zonas se possam alimentar de um único alimento (por exemplo lagostas vermelhas) durante largos períodos. Noutros locais alimenta-se de uma variedade de invertebrados, de peixes, tunicados ou mesmo de algas.

Distribuição
É uma espécie pantropical que vive principalmente no hemisfério norte, tendo a isotérmica dos 20ºC como limite da sua distribuição. Em águas costeiras continentais, onde se localizam a maior parte das colónias de nidificação, estas tartarugas são frequentemente encontradas a migrar entre as suas áreas de desova e as áreas de alimentação. Raramente ocorre junto de ilhas oceânicas. Os principais locais de desova localizam-se no Pacífico Ocidental (do México à Costa Rica), no nordeste da Índia e no Atlântico (no Suriname). Existem alguns registos da espécie fora da sua área comum de distribuição, quando alguns indivíduos são esporadicamente transportados por correntes e levados para locais tão distantes como o Golfo do Alasca ou a costa noroeste da Nova Zelândia. Embora não existam registos da espécie em Portugal, é provável que, ocasionalmente, possa ser encontrada nas nossas águas.

19 agosto 2006

A vida díficil das tartarugas marinhas...

Evolução

As tartarugas marinhas surgiram há, aproximadamente, 90 milhões de anos, a partir de ancestrais terrestres, surgidos provavelmente na Era Paleózoica, no final do Período Permiano, há cerca de 250 milhões de anos atrás.

De entre os animais que existiram no passado, muitas vezes recorremos aos dinossauros como referência para a extinção. Com a sequência de mudanças na Terra, estes animais acabaram por se extinguir, mas as tartarugas sobreviveram. Espalharam-se por todos os oceanos e diferenciaram-se em várias espécies. Todas, porém, mantiveram a sua característica principal de fusão das costelas e vértebras para formar um casco protector.

Uma das possíveis classificações é a seguinte:
Reino – Alimalia
Filo – Chordata
Subfilo – Vertebrata
Superclasse – Tetrapoda
Classe – Reptilia
Ordem – Testudinata
Subordem - Cryptodira
Família – 2 (Dermochelydae e Cheloniidae)
Género – vários
Espécie – várias

As tartarugas são identificadas pelas placas inframarginais (do ventre) e placas costais (do dorso) e ainda, pelo tamanho e forma da cabeça, forma das placas da cabeça e pela formação e coloração das placas costais.

Estão ameaçadas, entre outros motivos, pela destruição das suas áreas de nidificação, elevada mortalidade das fêmeas, e roubo das desovas, estando por isso incluídas em diversas listas de espécies ameaçadas e/ou em vias de extinção de diversas organizações mundiais.

Biologia

As tartarugas marinhas evoluíram, diferenciando-se de outros répteis, diminuindo o número de vértebras. As que sobraram, fundiram-se às costelas, formando uma carapaça resistente, mas leve. Esta tem a função de protecção contra impactos e predadores, e também aumenta o hidrodinamismo, facilitando o deslocamento na água.

Perderam a sua dentição, ganhando uma espécie de bico e os membros estão transformados em barbatanas, o que demonstra a sua adaptação ao meio aquático.

O seu tegumento é seco e coberto por placas, respiram por pulmões, mas conseguem suster a respiração por várias horas, diminuindo a actividade do organismo e o seu ritmo cardíaco (bradicardia), em que o fornecimento de oxigénio é auxiliado por um tipo de respiração acessória, feita pela laringe e cloaca.

A temperatura do corpo é regulada pela temperatura ambiente. Somente as fêmeas saem da água, por um curto período de tempo, para a desova. Em terra são lentas e vulneráveis, mas no mar deslocam-se com rapidez e agilidade.

Têm uma visão, olfacto e audição extremamente desenvolvidos.

Reprodução

São animais bissexuados (machos e fêmeas), com dimorfismo sexual, apenas notável nos adultos. Atingem a sua maturidade sexual por volta dos 35 anos de idade.

O acasalamento ocorre perto das praias de nidificação (onde fazem os ninhos e colocam os ovos), em águas profundas ou costeiras.

A fêmea escolhe entre vários machos e o acasalamento começa com algumas mordidelas no pescoço e nos ombros. A cópula dura várias horas e uma fêmea pode ser fecundada por vários machos.

A fertilização é interna, tendo a fêmea a capacidade de armazenar esperma.

Mesmo vivendo dispersas na imensidão dos mares, sabem o local exacto da reunião para a reprodução. Nessa altura, fazem viagens transcontinentais para voltar às praias onde nasceram para desovar. Os investigadores ainda não encontraram uma explicação para este extraordinário sentido de orientação.

O ciclo reprodutivo varia de espécie para espécie entre 2 em 2 e 4 em 4 anos.

Desova

Em alguns locais, o comportamento da desova é solitário. Procuram as praias desertas, no período entre Setembro e Março, e, regra geral, fazem-no ao anoitecer pois o calor da areia durante o dia, prejudica a postura ao mesmo tempo que a escuridão as protege de possíveis predadores.

Desovam durante a noite, num complicado processo de selecção do local do ninho. Primeiro, aproximam-se da costa, onde escolhem um trajecto escuro, sem muitos obstáculos. Segundo, sobem a praia até um local onde estejam livres da acção constante da maré. Quando atingem o local pretendido, escavam um grande buraco redondo para o ninho, com cerca de meio metro de profundidade, com as barbatanas posteriores. De seguida põem os ovos, que são redondos e brancos, semelhantes a bolas de ping-pong que estão cobertos por um muco que os protege contra fungos e bactérias. Depois, fecham a câmara preenchendo-a com areia até taparem completamente todos os ovos. Por fim, retornam ao mar, não voltando a terra até à próxima desova.

Em cada postura uma tartaruga pode colocar em média 120 ovos. As fêmeas podem desovar de 3 a 6 vezes em cada estação.

Incubação

Os ovos são brancos com cascas finas e flexíveis, no entanto é comum uma pequena percentagem de ovos anómalos.

O número de ovos varia muito entre 50 a 250 ovos, mas a média são os 120 ovos por ninho.

O período de incubação é de aproximadamente 8 semanas, sendo determinados pela temperatura.

A humidade do local da desova é um factor muito importante na incubação, onde as condições ideais são quando a humidade está próximo dos 25% com uma salinidade inferior a 25% de saturação.

Desenvolvimento embrionário

Geralmente ocorre uma rápida formação do embrião. Os factores mais importantes estão relacionados com a determinação do sexo, onde a temperatura determinante situa-se à volta dos 30ºC:
Temperatura abaixo dos 30ºC = maior número de machos;
Temperatura acima dos 30ºC = maior número de fêmeas.
Também se pensa que a localização do ovo na câmara determina uma interferência no sexo.

Eclosão

Com um estímulo “em cadeia” os filhotes com o bico córneo rompem as cascas dos ovos.

Após um repouso, trabalham juntos para escapar do ninho, tempo este que aproveitam para absorver o saco vitelino.

Os que se encontram na parte superior raspam e removem a areia do tecto da cavidade, enquanto que os de baixo cavam para os lados e constroem uma espécie de plataforma.

Geralmente, também eclodem durante a noite, quando a temperatura da areia é mais baixa.

Na superfície deslocam-se rapidamente para o mar num ritmo acelerado devido ao fototropismo positivo (são atraídos pela luz).

Muitos ovos não sobrevivem à eclosão, muitas crias não atingem o mar devido aos predadores, e mesmo aquelas que chegam, não são muitas as que sobrevivem mais de um dia. De uma maneira ou outra, cada vez menos tartarugas permanecem na população e, em média, apenas um em cada 10000 ovos sobrevive até à idade adulta.

Proyecto Karumbé – Tortugas Marinas del Uruguay

Karumbé significa tartaruga em Guaraní. Na época pré-hispânica, os índios Guaraní povoavam parte das costas uruguaias. Este projecto é constituído por um grupo de jovens estudantes, biólogos, veterinários e investigadores que decidiram unir-se em 1999 com a finalidade de conservar os recursos marinhos do Uruguai.

Cada integrante do Projecto realizou actividades de investigação com tartarugas marinhas em diferentes países, nomeadamente, México, Brasil, Costa Rica, Venezuela e EUA, participando tanto como voluntários ou técnicos de campo em diversos projectos de conservação.

Assim, nasceu o Projecto Karumbé, e pouco a pouco foram sendo realizadas saídas de campo para recolher dados de varrimentos, foi feita uma recolha bibliográfica de todos os trabalhos publicados relativos ao Uruguai sobre tartarugas marinhas e foram vistas todas as colecções museológicas em buscas de carapaças, de crânios, etc.

Por forma a difundir as actividades realizadas, foi instalado em Janeiro do 2000 o Primeiro Acampamento “tortuguero” do Uruguai, levado a cabo no Parque Nacional de Santa Teresa, com o apoio do Serviço de Parques do Exército.

Com todos os dados obtidos durante o ano de 1999 e parte de 2000, os integrantes do Projecto decidiram fundar um Projecto para a Conservação das Tartarugas Marinhas em águas uruguaias. Esta tarefa não teve um percurso fácil, mas depois de algumas correcções ficou concluída no final do ano 2000.

A proposta foi enviada para o “BP Conservation Programme”, cujos patrocinadores são a “BirdLife International” e “Flora & Fauna International”. Estas organizações dedicam-se a financiar e prestar apoio logístico a Projectos de Conservação Internacional. O Projecto foi seleccionado dentro de uma lista de 130 Projectos mundiais ficando entre os 30 melhores.

À medida que o projecto ia ganhando forma, continuaram os trabalhos de investigação e foram apresentados os diferentes trabalhos e suas conclusões em diversos Simpósios Internacionais sobre Biologia e Conservação de Tartarugas Marinhas, realizados em Texas (1999), Orlando (2000), Philadelphia (2001), Miami (2002) e Malásia (2003), causando muito boa impressão em toda a comunidade “tortuguera” internacional.

Karumbé foi nomeado em 2001, Membro Observador da UICN – Uruguai, desempenhado actividades pertinentes na conservação de tartarugas marinhas. No ano 2002 foi avaliado pela “National Fish and Wildlife Foundation” dando esta apoio económico para que o Projecto pudesse continuar.

Desde Junho de 2001 que o grupo Karumbé é membro da CID/CEUR, uma ONG sem fins lucrativos fundada em 1989. As suas áreas de acção são a investigação, desenvolvimento, educação ambiental e apoio social; desenvolvendo-se em todo o país.

Link para o site do Proyecto Karumbé:

http://www.geocities.com/karumbe1999/

18 agosto 2006

Uruguai

Em Janeiro de 2006 viajei até um país que me encantou pela sua simplicidade, pela sua simpatia e pela sua forma de ver a vida e de viver o dia-a-dia.

O Uruguai, de nome oficial República Oriental do Uruguai, fica localizado na parte centro-sul da América do Sul, fazendo fronteira a este com o Oceano Atlântico e a sul com o Rio da Prata. Está, ainda, “preso” entre os dois gigantes da América do Sul, a norte, o Brasil, e a oeste, a Argentina. A sua capital é Montevideo.

O país está dividido em 19 regiões, ou departamentos, dos quais apenas tive oportunidade de conhecer 2. São eles, o departamento de Montevideo e o departamento da Rocha.

Originalmente a região apresentava, em termos de vegetação, nas nascentes do Rio Uruguai, os Campos e a Mata com Araucária, e na direcção sudoeste, a Mata do Alto Uruguai (Mata Atlântica). Actualmente a região encontra-se intensamente desbravada e apenas áreas restritas conservam a vegetação original. Isto deve-se, principalmente, à expansão agrícola, mais especificamente ao cultivo de arroz, soja e trigo. Em termos de pecuária, pratica-se, com maior importância, a suinicultura e avicultura.

O Uruguai é o segundo menor país da América do Sul, e a sua paisagem é constituída principalmente por planícies e colinas baixas. A terra está ocupada na sua maior parte por pradarias. O ponto mais alto do país é o Cerro Catedral, com 514m de altura.

Quase tão longe do equador como Portugal, mas em hemisférios opostos, o Uruguai tem um clima temperado, mas quente, visto não ocorrerem com muita frequência as temperaturas negativas. O terreno plano fica de certo modo vulnerável a rápidas mudanças nas frentes meteorológicas e também ao pampero, um vento frio e ocasionalmente violento que sopra para norte desde as planícies das Pampas na Argentina, daí a sua designação. A temperatura média anual varia dos 16°C em Montevideo aos 19°C no norte do país, e a precipitação média anual varia dos 1000mm no sul do país aos 1300mm no norte. Em Montevideo, o mês mais quente é Janeiro, com uma temperatura média de 22°C, e o mês mais frio é Julho, com média de 10°C. As temperaturas máxima e mínima recordes registradas no país são de 43°C e -5°C, respectivamente. As geadas são bastante frequentes, mas a queda de neve foi registada muito poucas vezes.

A população do Uruguai é basicamente de origem europeia. A grande maioria dos imigrantes europeus que se deslocaram para este país eram italianos e espanhóis, embora, como é óbvio também tenha recebido imigrantes de outros países. Ao contrário de muitos países da América do Sul, a influência indígena no Uruguai não se encontra muito marcada. As tradições gaúchas têm grande importância no folclore. Ali fala-se espanhol, mas devido à fronteira com o Brasil, e ao grande esforço de vontade dos uruguaios, estes entendem e alguns até falam português.
Imagem de satélite do Uruguai