No Uruguai existem 4 espécies de tartarugas marinhas:
- Dermochelys coriacea (português: tartaruga de couro; espanhol: sete quillas).
Identificação
A tartaruga de couro é a maior de todas as tartarugas marinhas, atingindo entre os 150 e os 170cm de comprimento de carapaça e pesando até 500kg (embora já tenha sido encontrado um exemplar com 900kg). A sua carapaça é única, na medida em que, em vez de placas duras, é coberta por uma camada contínua de pele fina e possui uma série de sulcos longitudinais (7 na região dorsal e 5 na face ventral). Outras características distintivas desta espécie são a ausência de unhas, as suas grandes barbatanas (cerca de 1m nos adultos) e o reduzido esqueleto, já que muitos ossos presentes na carapaça das outras tartarugas estão ausentes na tartarugas de couro. A cabeça dos adultos é pequena em relação ao comprimento da carapaça, sendo esta redonda e desprovida de placas. O bico, apesar de frágil tem as extremidades aguçadas e a mandíbula superior apresenta a forma de w quando vista de frente. Os adultos possuem uma coloração negra, possuindo muitas vezes manchas brancas. Os machos distinguem-se das fêmeas principalmente pela cauda mais longa, além disso, as fêmeas possuem uma mancha rosada no cimo da cabeça.
Biologia
Estas tartarugas são basicamente pelágicas e apenas se aproximam da costa durante as épocas de reprodução. A dieta alimentar dos recém-nascidos e juvenis não é muito conhecida, assumindo-se que têm uma dieta carnívora durante todo o seu ciclo de vida. Os adultos alimentam-se principalmente de medusas, tunicados e outros invertebrados epipelágicos de corpo mole, abundantes em zonas de upwelling e de correntes de convergência. Embora se alimente basicamente destes organismos, esta tartarugas desce frequentemente a águas profundas, estando fisiologicamente bem adaptada para o fazer. Ao contrário da maioria das tartarugas marinhas que nidificam durante a Primavera e o Verão, esta normalmente nidifica durante o Outono e o Inverno, emergindo em grandes grupos nos locais da desova. As praias de desova caracterizam-se pela ausência de recifes, pelos declives acentuados que facilitam o acesso a estes animais e por se localizarem perto de águas oceânicas profundas. Os ninhos são geralmente construídos ao longo da linha da preia-mar e muitas vezes abaixo desta, o que pode ter consequências graves nas posturas devido à destruição por parte da acção das ondas e marés vivas. Dermochelys coriacea tem um ciclo de nidificação de 2 a 3 anos. As fêmeas geralmente fazem 4 a 5 (menos frequente 6 ou 7) posturas em cada estação reprodutiva, com intervalos de 10 dias, depositando 60 a 130 ovos de cada vez. A incubação varia entre 50 e 78 dias e está relacionada com a temperatura e a humidade do local. Em ambientes quentes e secos o período de incubação é mais curto com uma menor taxa de sobrevivência. A eclosão dos recém-nascidos acontece, na maioria das vezes, durante a noite. À semelhança do que acontece com as outras tartarugas, os ovos e recém-nascidos são predados por uma variedade de organismos, sendo, ainda assim, demasiado grandes para os pequenos predadores. Os juvenis e adultos são predados por tubarões e por orcas.
Distribuição
As tartarugas de couro adultas estão adaptadas a águas mais frias do que as outras tartarugas, por isso a sua distribuição é mais ampla, havendo numerosos registos da espécie em latitudes elevadas, distantes das zonas tropicais e subtropicais de desova. As principais praias de nidificação no Atlântico localizam-se no Caribe e na costa da América do sul, havendo algumas praias de desova solitárias espalhadas ao longo da costa africana. No Mediterrâneo não existem registos recentes de nidificação. Em Portugal, existem vários registos de adultos, a maioria capturada acidentalmente nas redes de pesca.
Existem 2 subespécies: Dermochelys coriacea coriacea no Atlântico e Dermochelys coriacea schlegelii no Pacífico, separadas principalmente pelos diferentes padrões de distribuição geográfica, mas também por caracteres morfológicos (tamanho da cabeça e do corpo) e pela coloração, acreditando-se que a quantidade de manchas brancas que cobrem o corpo seja significativamente diferente nas duas populações.
- Chelonia mydas (tartaruga verde)
Identificação Chega a atingir 139cm de comprimento curvo da carapaça e 235kg de peso, representando, deste modo, a maior tartarugas marinha de carapaça rígida. Em geral, os machos são mais pequenos que as fêmeas. As características que a distinguem das outras tartarugas são a sua cabeça pequena e redonda e a carapaça sem rugosidades. A cabeça possui um par de placas pré-frontais alongadas, enquanto que a carapaça apresenta 4 pares de placas costais, 5 placas vertebrais e 12 pares de marginais. Ventralmente possui 4 pares de placas ingramarginais desprovidas de poros. Cada barbatana contém uma única unha visível. Nos adultos, a cor da carapaça varia desde o preto acinzentado até ao castanho ou esverdeado, podendo apresentar traços radiais ou manchas. O plastron (ventre) é, geralmente, branco ou amarelado.
Biologia
Os recém-nascidos deixam a praia e deslocam-se para o mar aberto, onde passam a primeira etapa da sua vida. Quando atingem os 20-25cm de comprimento deixam o habitat pelágico e entram nas áreas bentónicas de alimentação, que se localizam normalmente em locais abrigados e pouco profundos, ricos em algas e fanerogâmicas marinhas. A maturidade sexual é atingida entre os 20 e os 50 anos. Quando adultas, realizam migrações sazonais entre as zonas de alimentação e as áreas de desova, as quais se podem localizar a mais de 2000km de distância. O intervalo entre as migrações de desova sucessivas é de 2 a 4 anos, mas ocasionalmente existem fêmeas que desovam em anos sucessivos. O acasalamento ocorre no mar, ao largo das praias de nidificação. A fertilização dos ovos depositados em cada ano parece ocorrer em estações reprodutivas anteriores. Em cada estação, as fêmeas colocam 1 a 7 posturas, separadas por intervalos de 12 a 14 dias. O número médio de posturas é de 110 a 115 ovos e o tempo de incubação varia entre 48 a 70 dias, dependendo da temperatura e humidade do local. A eclosão dos ovos começa durante a noite e cessa quando a areia começa a aquecer. Os recém-nascidos do mesmo ninho emergem simultaneamente, deslocam-se rapidamente para a zona de rebentação e nadam freneticamente para o mar aberto.
Estas tartarugas são essencialmente herbívoras quando adultas. A dieta dos recém-nascidos e juvenis durante a fase pelágica é praticamente desconhecida, supondo-se que sejam carnívoras (o que lhes assegura uma taxa de crescimento mais) e que se tornem progressivamente herbívoros à medida que ganham tamanho suficiente para evitar a maior parte dos predadores.
Distribuição
Têm uma distribuição ampla, ocorrendo na maior parte dos mares tropicais e subtropicais, perto de costas continentais ou à volta de ilhas. Raramente ocorre em águas temperadas. As principais praias de desova da população do Atlântico localizam-se na Costa Rica (na Praia do Tortuguero), Venezuela, Suriname, nordeste brasileiro, Ilhas Ascenção e Cabo Verde. No Mediterrâneo existem pequenas colónias reprodutoras no sul da Turquia e uma na costa leste do Chipre. Existem dois registos de tartarugas verdes capturadas na Madeira, ambos juvenis de 30.4 e 43.5cm de comprimento.
Estão descritas duas subespécies: Chelonia mydas mydas do Atlântico e Chelonia mydas japonica do Índico e Pacífico, separadas principalmente pela sua distribuição geográfica e por determinadas características morfológicas e comportamentais.
- Caretta caretta (português: cabeçuda; espanhol: cabezona)
Identificação
Cabeça com dois pares de placas pré-frontais e, normalmente, uma inter pré-frontal. Bico unguloso mais forte do que em outras tartarugas. Carapaça com uma razão de largura por comprimento entre 83 e 93%. Escudos da carapaça finos, mas duros e ásperos, frequentemente cobertos com cracas. 5 pares de placas costais, o anterior tocando a placa da nuca. 5 pares de placas vertebrais e, normalmente, 12 a 13 placas marginais incluindo as pós-centrais. Plastron com 3 pares de inframarginais que raramente têm poros. Barbatanas anteriores relativamente curtas e grossas, cada uma com 2 unhas visíveis na margem anterior.
Na Madeira todos os exemplares (salvo algumas excepções) são juvenis com comprimentos de carapaça curvados entre 174 e 675mm (comprimento direito "SCL" de 148-620mm) em comparação ao comprimento médio de animais adultos de 920mm e máximo de 1220mm. Em termos de peso as tartarugas na Madeira pesam entre 0.25 a 32Kg.
Nos juvenis, especialmente nos mais pequenos, as placas da carapaça, principalmente os escudos ou placas vertebrais têm quilhas muito marcadas alongadas em sentido caudal, ficando a carapaça com um aspecto serrado quando vista lateralmente.
O dimorfismo sexual é pouco acentuado, não sendo normalmente possível a distinção dos sexos, especialmente em juvenis. Em adultos os machos têm caudas comparativamente mais longas e o plastron ligeiramente côncavo.
Biologia
Os adultos têm hábitos costeiros embora possam fazer migrações muito longas que passam por alto mar. Os juvenis e sub-adultos são normalmente pelágicos, ou seja, habitam quase exclusivamente o mar alto.
O acasalamento acontece no mar, perto das praias de nidificação. No Atlântico Norte as praias reprodutoras encontram-se somente nas costas do norte da América do Sul, Caribenhas e Norte-Americanas. Aproximadamente 90% das tartarugas da Madeira nasceram em praias da Florida, nos Estados Unidos da América. Não há registos de nidificação nas costas europeias atlânticas, ocorrendo, no entanto, no Mediterrâneo, especialmente Turquia., mas também Grécia e Itália e outros.
A postura é depositada quase sempre de noite em ninhos escavados pela fêmea em solo arenoso ao abrigo da maré alta. O número de posturas é de 58 a 174 ovos, podendo a mesma fêmea pôr até 7 posturas sucessivas numa época reprodutora activa, cada postura separada por um intervalo médio de 13 dias. Em geral as fêmeas nidificam cada 2 a 3 anos.
O tempo de incubação é de 49 a 64 dias. A temperatura de incubação determina o sexo dos recém-nascidos. A saída dos jovens do ninho acontece de noite, dirigindo-se ao mar aberto. Subdivide-se o ciclo de vida das tartarugas marinhas em 4 fases:
1 – fase de recém-nascido (os primeiros meses);
2 – fase juvenil pelágica (15-30 anos em mar aberto);
3 – fase juvenil costeira (1-2 anos);
4 – fase adulta (a partir da maturidade sexual até à morte).
A taxa de crescimento depende da data de eclosão, entre outras variáveis, alcançando os 185 a 200mm de comprimento de carapaça depois de 13-16 meses. As tartarugas mais pequenas capturadas na Madeira têm portanto aproximadamente 1 ano de idade ou menos. A idade da maturação é estimada entre 15 a 30 anos com uma média de 920mm de comprimento de carapaça direito.
O alimento é bastante variado, sendo os adultos principalmente bentónicos comendo moluscos e crustáceos. Os juvenis e sub-adultos pelágicos alimentam-se principalmente de celenterados (alforrecas), tunicados e cefalópodes (lulas e polvos).
Distribuição
Tem uma distribuição ampla ocorrendo em todos os mares quentes ou temperados. Com excepção da tartaruga de couro é a tartaruga marinha que frequenta águas mais temperadas, tendo sido capturada desde New England até a Argentina. Os juvenis e sub-adultos capturados na Madeira e nos Açores são na sua grande maioria oriundos de praias reprodutoras americanas, não se excluindo que alguns provenham do Mediterrâneo. Estes animais circulam no sistema de correntes do Atlântico Norte até à maturidade, altura em regressam às costas natais.
Estão descritas duas subespécies: Caretta caretta caretta do Atlântico e Caretta caretta gigas do Pacífico, ligeiramente maior. No entanto o estatuto de subespécie parece carecer de justificação genética e anatómica.
- Lepidochelys olivacea (português: tartaruga-oliva, espanhol: olivacea)
Identificação
A tartaruga olivacea é por vezes confundida com a tartaruga de kemp (Lepidochelys kempii), devido às suas semelhanças morfológicas. O número de placas da cabeça e da carapaça é semelhante nas duas espécies, embora a tartaruga olivacea possa apresentar mais do que 5 placas costais. As placas inframarginais nesta espécie também possuem um poro na sua margem posterior. O corpo é menos achatado do que o da sua congénere e a carapaça apresenta as margens laterais voltadas para cima e o topo achatado. Tal como na tartaruga de Kemp, a carapaça tem uma forma quase redonda (a largura corresponde a cerca de 90 % do seu comprimento). A cabeça é subtriangular e mede cerca de 22.4 % do comprimento direito do corpo. Cada barbatana anterior possui 1 a 2 unhas visíveis e as posteriores apresentam duas unhas.
Biologia
Como acontece com outras tartarugas marinhas, existem poucas observações da espécie durante o estado juvenil. Pensa-se que os recém nascidos são dispersos passivamente por fortes correntes e transportados para locais distantes das áreas de nidificação. Anos mais tarde, pouco antes de atingirem a maturidade sexual, começam a aproximar-se das áreas costeiras de alimentação e de desova. Os adultos alimentam-se em águas pouco profundas e a sua migração entre estas zonas de alimentação e as praias de desova faz-se ao longo da plataforma continental, utilizando, por vezes, as correntes oceânicas dominantes. Durante a migração, são geralmente observados em grandes grupos, sendo também usual observar-se milhares destas tartarugas a flutuar em frente à praia de nidificação. Foi provavelmente a espécie mais abundante de todas as tartarugas marinhas. Actualmente ainda existem algumas praias de desova onde se registam sazonalmente grandes concentrações destes animais. Estas praias estão geralmente localizadas em áreas isoladas, algumas delas separadas do continente por lagunas costeiras. As tartarugas olivaceas agregam-se em frente às praias de nidificação no início do Verão e alguns dias mais tarde, milhares de tartarugas invadem a praia para desovar. Esta "arribada" tem início durante a tarde (quando a areia começa a arrefecer) e aumenta de número até atingir um máximo por volta da meia noite; depois as tartarugas começam a deixar a praia até à manhã seguinte. A desova pode estender-se por dois ou três dias e repete-se mensalmente até ao final do Outono. Cada fêmea coloca em média 109 ovos e o tempo de incubação é em geral, entre 45 a 65 dias. O acasalamento acontece durante a migração ou perto da praia de desova (antes ou ao longo do período de desova). A maior parte das fêmeas (cerca de 60 %) nidifica anualmente, e, embora utilizem geralmente a mesma praia em anos consecutivos, existem alguns registos de tartarugas a desovar em praias distintas, perto ou afastadas da original. A idade da maturidade sexual é desconhecida. Por ser uma das menores tartarugas marinhas, a maturidade deve ser atingida cedo, quando estas possuem cerca de 62 cm de comprimento direito da carapaça.
Como acontece com as outras espécies de tartarugas marinhas, o sucesso de eclosão dos ovos depende directa ou indirectamente das perturbações da praia por acção do homem, de tempestades, inundações, erosão, compactação da areia, invasão por fungos ou bactérias e predação. A hora do dia em que se dá a eclosão também afecta a taxa de sobrevivência dos recém-nascidos: geralmente a eclosão tem lugar entre a tarde e o início da manhã. Fora destas horas, os recém nascidos são mais facilmente predados ou dessecados pelo Sol ou pela areia antes de atingirem a zona da rebentação. Durante o dia os principais predadores são aves e mamíferos. À noite a predação diminui, sendo no entanto, desempenhada por uma variedade de mamíferos nocturnos. Outro tipo de predadores dos ovos e dos recém nascidos, são certas espécies de lagartos e cobras. Outros predadores sempre presentes são os caranguejos, que por vezes se encontram aos milhares nas praias de desova. No mar, as pequenas tartarugas são comidas por aves marinhas e por peixes. Durante a fase juvenil, estas tartarugas podem ser predadas por grandes peixes ósseos e por pequenos tubarões, enquanto que os adultos apenas são comidos por tubarões. Os adultos nas praias de nidificação podem ser mortos por cães, jacarés, jaguares, tigres e outros predadores, embora a predação por felinos tenha diminuído acentuadamente nos últimos tempos.
A dieta alimentar dos adultos é variada, embora em algumas zonas se possam alimentar de um único alimento (por exemplo lagostas vermelhas) durante largos períodos. Noutros locais alimenta-se de uma variedade de invertebrados, de peixes, tunicados ou mesmo de algas.
Distribuição
É uma espécie pantropical que vive principalmente no hemisfério norte, tendo a isotérmica dos 20ºC como limite da sua distribuição. Em águas costeiras continentais, onde se localizam a maior parte das colónias de nidificação, estas tartarugas são frequentemente encontradas a migrar entre as suas áreas de desova e as áreas de alimentação. Raramente ocorre junto de ilhas oceânicas. Os principais locais de desova localizam-se no Pacífico Ocidental (do México à Costa Rica), no nordeste da Índia e no Atlântico (no Suriname). Existem alguns registos da espécie fora da sua área comum de distribuição, quando alguns indivíduos são esporadicamente transportados por correntes e levados para locais tão distantes como o Golfo do Alasca ou a costa noroeste da Nova Zelândia. Embora não existam registos da espécie em Portugal, é provável que, ocasionalmente, possa ser encontrada nas nossas águas.


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