
A última noite que dormimos juntos foi a última vez que nos vimos. Vi-te como nunca tinha visto nada nem ninguém. Apesar de apenas uma vela estar acesa foi como se o sol do meio-dia iluminasse o quarto e, de repente, tudo fazia sentido. Foi como se, na noite escura como breu, aparecesse a lua cheia e eu te visse, como nunca ninguém te viu. Vi-te como nunca te viram apesar de ter os olhos fechados. Mas a tua respiração, tornou-se sincronizada com a minha, e os nossos alentos faziam ricochete nas pequenas paredes do teu quarto, onde falávamos sem precisar de dizer nada, em branco e azul. O bater do teu coração estava ritmado com o meu, ambos sentido a mesma coisa, no mesmo momento. O teu toque na minha pele fez-me arrepiar, fez com que cada um dos pêlos do meu braço sentisse o teu pulsar, através do teu toque na minha barriga.
As horas pareceram segundos. Acariciavas-me e abraçavas-me e eu, só pensava que o mundo podia acabar ali. Tocaste-me, como nunca o tinhas feito antes, o coração. Deixaste-te levar, finalmente, pelos impulsos do coração e beijaste-me. Deixaste que a razão falasse mais alto e paraste. Eu não te impedi porque não te queria pressionar.
Sempre te deixei bem claro que estaria aqui para ti. Demonstrei-te, uma e outra vez que te amava, fosse de que maneira fosse, seja lá o que for que significa amar. Mostrei-te e voltei-te a mostrar que não sou perfeita pois sou real. Existo e sei o que quero, e anseio por ti. Não penses que te quero. Querer-te significaria possuir-te e ninguém pode ter ninguém. Se fosses meu, não serias o que és, e não te amaria por aquilo que ainda podes ser.
Nunca ninguém falou comigo como nessa noite, sem dizer uma única palavra. Ouvi os teus receios e percebi, por fim, porque sempre tiveste tanto medo. E, porque agora estamos separados por milhares de quilómetros por terra ou três horas de voo, reconheces que não me deste o devido valor. Talvez, mesmo que pudesses voltar atrás, tivesses feito tudo da mesma maneira. Acredito que o fizesses conhecendo o pouco que conheço de ti. Mas também acredito que te toquei o coração quando menos estavas à espera. Quando o tinhas fechado tão bem a sete chaves, e depois me conheceste, e eu consegui penetrá-lo. Acredito que hoje te sentas na tua cama a ler as minhas cartas e pensas “E se eu tivesse arriscado?”. Acredito que a dúvida passa pela tua cabeça e, em apenas alguns segundos, se dissipa no ar, porque não te podes permitir pensar naquilo que te faz sofrer.
Naquela noite, sem eu me dar conta, morreu em mim o resto de esperança que tinha de que ainda podíamos ficar juntos. Porque nem depois de tudo o que já te fiz para te assegurar que gosto de ti, apenas para não teres medo daquilo que todos receamos: a rejeição. Nem depois disso és capaz de agir. Dizes-me, como sempre disseste, exactamente aquilo que quero ouvir; e eu, fico aqui, a sonhar acordada, inconscientemente à espera de todas as vezes que a campainha toca ou que tocam à porta, que sejas tu do outro lado. Que tenhas, finalmente, percebido que tinhas de me ver outra vez e que não podes viver sem mim. Fico aqui, à espera, de cada vez que o meu telemóvel toca, que sejas tu para me dizeres que estavas a pensar em mim. E depois, acordo. Quando as mensagens não são tuas, os toques não são teus, e quando abro a porta não és tu que estás do outro lado. E volto à minha vida, à minha rotina, tentando, em vão, apagar as chamas de esperança que acenderam no meu coração, como um fogo em fase de rescaldo que insiste em reacender.
Há muito que te desejo escrever esta carta; que a possas ler e interpretar tal como a escrevi, isso é outra história. Ao escrever cada uma destas palavras, linhas e parágrafos, sei que não as vais entender pois não falamos a mesma língua. Aquilo que dizíamos um ao outro não precisava de tradução pois era mais intenso e mais forte que qualquer idioma do mundo. Nem sempre te entendia e tu quase nunca me entendias, mas a comunicação não era uma barreira para nós. Disseste mais em um olhar que em mil palavras. Disseste-me mais num gesto que em um discurso. Disseste-me mais numa acção que em toda uma vida de diálogos.
Foste, e por isso serás sempre, o meu primeiro amor platónico, mas a verdade é que estou cansada de sonhar e de esperar, de pensar em ti e se pensas em mim, se tens ou não saudades minhas, se à noite adormeces abraçado ao ar, a sonhar que eu estou ali, tal como na última noite em que dormimos juntos.

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