09 janeiro 2008

Pra ti... tu sabes quem és II

Podias-me ter dito que querias sair da minha vida, tal como te pedi mil e uma vezes que o fizesses quando fosse isso que quisesses. Podias-me ter escrito aquela carta que esperei encontrar na minha caixa do correio, todos os dias, durante meses; podias ter escrito um e-mail, essa forma tão impessoal de comunicação; podias ter escrito uma mensagem, como eu tantas vezes te fiz só para saber como estavas. Podias e devias ter mandado um ramo de flores com aquela playlist, que ansiei durante tanto tempo que deixei de o ver passar, com um cartão a dizer “desculpa”. Já te tinha perdoado, há muito tempo. Conheço-te melhor do aquilo que pensas e sei que estavas arrependido, mas não pediste perdão. Eu sabia, há muito tempo que uma das tuas filosofias de vida era o que está longe da vista está longe do coração. Eu sabia que os teus sentimentos por mim não iam permanecer iguais nem semelhantes com a erosão do tempo e o silêncio da distância.

Podias-me ter dito que o teu verbo preferido era o verbo desistir, embora eu já o devesse ter percebido pelas tuas atitudes enquanto ainda estávamos juntos. Mas não, não vi que esse era o teu verbo preferido mas sim que o medo era o teu substantivo. Aquela palavra que para ti é um adjectivo porque é aquela que melhor te caracteriza e está para ti como luz está para o sol. Não sei como se diz desistir na tua língua, nem quero aprender, já demorei tempo suficiente a compreender o verdadeiro significado na minha, e a perceber que às vezes é a única solução.
Aprendi muita coisa, não contigo, mas graças a ti. Aprendi que o amor não escolhe país nem idioma, que não se importa com a idade, credo ou religião. Não se importa com a política e a economia. Aprendi que existem muitos meios de transporte que nos levam para os braços de quem amamos. Procurei-te com a ajuda de aviões e de autocarros, mas não te consegui encontrar. Quando cheguei, já te tinha perdido para qualquer outra coisa que nunca me quiseste dizer o que era. Aprendi a vaguear por uma cidade nova, desconhecida e a sentir-me feliz, aprendi a descobrir-me e a conhecer-me, nos rostos de pessoas que falavam uma língua que eu não entendia. Aprendi a não te pedir que me amasses, e a nunca te pedir nada em troca por todo o amor e tudo de mim que te dei.
Também sei que aprendeste muita coisa comigo, mais do que te permites admitir a ti próprio. Vais perceber um dia, tudo aquilo que aprendeste comigo através dessa caixa de recordações que é o tempo, onde tu estás de um lado e eu estou do outro. Vais-me ver nas pequenas coisas que formam a tua vida, nas pequenas lembranças que te recordas, nas pequenas palavras que te irão levar para um passado, agora próximo mas um dia distante. E vais sorrir, porque sabes que te fiz feliz, mais do que aquilo que querias e vais sentir-te melancólico porque sabes que te dei tudo a troco de nada. Como tu próprio disseste, nunca na vida vais conhecer alguém como eu, que entendia o teu mundo sem precisares de mo explicar ou de me dizer, sequer, uma única palavra. Fechávamos os olhos e éramos os dois transportados simultaneamente para esse mundo onde não querias deixar entrar ninguém e eu descobri a porta através do teu coração.
Não sei quando ou se te voltarei a ver ou a ter notícias tuas, mas sabes que mais? Já não me importo, porque sempre soube que ia ser assim e como garantia guardei-te no meu coração antes de partires. Para que saiba sempre que foste tu que me ensinou tudo aquilo que supracitei. Não gosto apenas de me recordar das coisas, gosto de me recordar das pessoas que me fizeram aprendê-las. Imagino que te vais arrepender de não só ter saído da minha vida mas de ter saído dela sem me teres dito nada…

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